Final Fantasy XV - Simples, imersivo, imenso
Em tempos de K-pop, um cara fã dos Final Fantasy VII, VIII e IX, olha pros protagonistas do Final Fantasy XV e se sente olhando um boy group coreano. Aprende-se que é um príncipe e seus três escudeiros e amigos, Ignis, Gladio e Prompto, em uma missão simples, levar Noctis, o sucessor do trono do reino de Insomnia, para se casar com Lunafreya e cumprir um tipo de profecia entre a família real e esta moça que é uma Oráculo. O game teve um desenvolvimento conturbado de dez anos, nascendo em 2006 como Versus XIII sob direção de Tetsuya Nomura, até mudar para Hajime Tabata na Luminous Engine e ganhar complemento com o filme Kingsglaive e o anime Brotherhood. A história engrena de verdade quando o Império de Niflheim invade a capital. Noctis e Lunafreya se conhecem desde crianças, a família real tem poderes especiais, razões místicas para serem considerados especiais neste mundo, e a Oráculo também é dotada de habilidades de cura.
Este simples romance entre um príncipe e aquela de seu destino acontece no mundo de Eos, em um tempo que tem semelhanças com este nosso aqui, nosso real, pra além de leis físicas e algumas morais, tipo os carros e algumas roupas, mas que se atravessa com demônios pela estrada e ruínas e tumbas com espadas e Armas Reais mágicas. Com certeza há jogos com mundos mais vivos, FFXV já é de 2016, hoje tem 10 aninhos, mas é muito imersivo ver os monstros pelo mapa, organicamente em um habitat coerente, em dinâmica com dia, noite, chuva, os personagens falando sobre calor, frio e cansaço. Os NPCs ainda são um pouco à toa e algumas cidades são maiores do que a quantidade de pessoas na rua realmente denota, mas são ambientes vivos e bonitos.
De começo, o tamanho do mapa e a quantidade de missões paralelas faz o jogo parecer um pouco vazio de tão grande, mas a chave aqui ainda é imersão. Até as viagens automáticas mais longas com o carro Regalia podem se tornar divertidas se o jogador se permitir entrar no clima de ouvir trilhas sonoras de outros Final Fantasy e contemplar o trajeto, apesar de que há momentos em que pode bater certa aflição de ver a quantidade de missões e caças ativas naqueles que gostam de completar tudo ou quase tudo.
O sistema de experiência e subir de nível é mais um ingrediente na potência imersiva do game, acumula-se experiência com lutas e missões, mas elas só são computadas quando os personagens dormem, e ainda assim, alguns efeitos desses níveis só surtem quando os ativamos naquelas árvores de habilidades, aqui chamadas Ascension. Menos que burocrático, tudo isso dá sensação de que estamos tomando decisões. Dinheiro também não se ganha logo ao vencer batalhas, precisamos vender itens ou completar caças. O sistema de magia não é o mais envolvente entre todos os Final Fantasy, mas faz sentido com o contexto daquele mundo em que a família do protagonista tem poderes especiais para absorver e manipular elementos. Com isso, Noctis é extremamente poderoso, pode usar diversas armas diferentes e parte de sua missão é justamente ir à procura das Armas Reais de sua família em dungeons, o que contextualiza ainda mais os poderes de sua linhagem.
A trilha sonora tem destaque neste que pode ser considerado o 44º jogo da franquia, com outros critérios ele poderia estar para além da 80ª posição, mas nem sempre o destaque da trilha é positivo. Vai cair em questões de gostos pessoais, a trilha original do jogo foi composta por Yoko Shimomura, enquanto Nobuo Uematsu entra com as composições clássicas dos jogos anteriores que ouvimos na rádio do carro. No FFXV não tem um tema longo que toca em viagens pelo mapa em loop o tempo todo fazendo o jogador se hipnotizar com variações contínuas. Este o tema de Shimomura é curto, lindo, mas é interrompido constantemente pelas músicas de batalha, e das entradas no menu. Além disso, diferente de outros games da franquia, este é inundado de silêncios, climas tensos, que, em verdade, ajudam muito na imersão. As dungeons têm um climão, silenciosas, as viagens de carro ou são em silêncio ou ouvindo as trilhas de outros jogos que compramos pelas lojas com gil, e as viagens de chocobo são com o tema do chocobo ou com as mesmas trilhas e podemos ouvir de carro. Aqui o problema jamais será falta de variedade, pelo contrário, é incrível a quantidade de músicas que se pode ouvir, da franquia original do I até o XIV, e mais músicas de jogos tipo Nier e outros da Square Enix, mas isso talvez distancie o jogador de se envolver com este jogo específico, naquela afetividade imensa que dá ouvir a mesma música na trilha de um jogo vezes e vezes seguidas. A trilha de uma cidade se modifica com o local desta cidade em que estamos com o persona, quando mais movimentado de NPC há mais instrumentos e dinâmica mais forte na música, enquanto em pousadas a mesma composição recebe um arranjo mais suave.
O enredo principal parece absolutamente simples, um príncipe indo atrás de armas e entidades místicas, chamadas Astrals, para enfrentar o Império de Niflheim e enfim poder ficar com sua prometida, mas a delicadeza com que é abordada as nuances dessas famílias, dessas violências e desses amores é emocionante. Pra quem jogou Final Fantasy VI é legal também ver a reinterpretação dos Magitek, e as animações das invocações são fenomenais. A relação de Noctis com seus escudeiros é posta de supetão e sem precisas contextualizações para o jogador, ainda assim serve de ilustração de lealdade e dedicação aos amigos. Aliás, em quase todo RPG, controlamos um protagonista que é seguido por outros personagens, em muitos casos o líder é escolhido arbitrariamente por mera conveniência de gameplay, e aqui talvez não seja diferente, mas neste caso, sendo realmente o rei o tomador das decisões e super poderoso, até este personagem principal é justificado. A história principal não se aprofunda especialmente nas motivações dos companheiros do rei, mas ela ainda assim nos convence e caracteriza bem os temperamentos dos personagens não jogáveis. A relação entre Noctis e Luna é desenhada com maestria, simples e ingênua, me fez chorar de soluçar.
É um jogo bom, RPG de mundo aberto, com coleta e misturas de itens, NPCs divertidos, é cinematográfico, tem excelentes ambiência e imersão. As side quests recompensam com itens, experiência, fragmentos de história e segredos, e também têm cruzamentos com outros jogos, como Final Fantasy XIV, e até patrocínio com missão especial do Cup Noodles, mas são numerosas e um pouco extensas, há quem goste. Há dois sistemas de batalha, o Modo Dinâmico e o Modo Espera, só testei um, o dinâmico, não achei dos mais intuitivos e acho que ainda prefiro RPGs de turno, mas é divertido, e não é difícil. O que atrapalha demais a experiência das lutas são os obstáculos e a natureza pelo cenário que obstruem a câmera, somando isso ao clima muitas vezes escuro, não se vê nem entende nada do que está na tela. Recomendo pra quem gosta de jogos longos, fantasiosos e imersivos, dá pra passar boas 100 horas com o game, tem uma pegada de Final Fantasy I, Dragon Quest I, vai entreter, divertir e emocionar quem se permitir imergir naquele simpático e conturbado mundo.