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Cristal e Mato

quando eu cheguei aqui era só mato, mato, mato
a vida bem mais simples 
e a gente mais feliz
menos aterro, mais mar

mangue é berço e não obra
o sol quer dourar quem banhar
sem sombra de prédio na orla
sem pagar pedágio pra hotel
ilha nos brilha sestrosa
bruxas e poetas
espelho de cristal
quando cheguei aqui
numa bernunça em sambaqui
ímpar poema ao luar

a voz da Neide é uma rosa
nas rodas que choram pelo Miramar
o morro te rima amorosa
trazem pedacinhos de céu
a lua, nas dunas, dengosa
se benze vaidosa
espelho de cristal
quando eu cheguei aqui
cheirinho de malva e alecrim
pela aí a assobiar 

Mais do que ritmo

mais do que um ritmo

faz o mundo girar

dá mais do que sentido

chão pra a gente dançar

é qualidade das musas

é saudade e prazer


ser humano é sofrer de amor

é sofrer de guerra, superar a dor

trabalhar, transar, servir, ser senhor

ser feio e sedutor

tudo isso só vale a pena se o compositor

antena criador

cai na cadência e inverte o tom


se um dia eu amei outras já nem lembro mais

não há língua, palavra que me toque mais

que este som

está gravado para sempre dentro do meu coração

perfeita harmonia que até pareceria dom

melancolia sublimada em melodia

e segue o som

que está gravado para sempre dentro do teu coração

perfeita mais que a vida que até pareceria dom


Uma Deusa (Haruismo Panteísta)

uma deusa que me invade o coração
inventa minha libido então destrói sua criação
domina
uma deusa nunca pode ouvir não
me incrimina, me alucina e me tem na sua mão
me mima

me encantei no seu jeito
me trancei nos cabelos 
escondi o desejo
de mais

ela grita
teima com a vida
se diz que existe et, então que exista
faz de um planeta prancheta
de mim sua luneta
só por diversão
eterniza o verão
inconsciente, não ouve não
eu, leal feito um cão
pacifico o vulcão

me encantei no teu jeito
me lancei nos enredos
perdi o medo
de nós

Ingênuo

Olha o que eu te escrevi outro dia
Se não foi por amor, por que seria?
Mas eu sou assim
Nem me diz
Que eu tenho que deixar de ser tão ingênuo 
E dizer que te amo

Contigo aprendi sem rezar

contigo aprendi
nosso pai é severo e comete erros
é preciso redizê-lo
contigo aprendi
nossa mãe sofre
por nos ver cumprir 
o destino desejo
que nós sempre soubemos
estar à espreita por nós 

contigo aprendi
amor é afeto
paixão mata
morte é exata
e a tua deveria ter sido 
a única diante da mãe 

contigo aprendi 
não se vende aquilo
que nos é sagrado
contigo aprendi
toda música é louvor
temer o mau já é se corromper

aprendi contigo
chutar mercantes de caridade
e empunhar a espada contra enganadores
é ato de amor
aprendi contigo 
a boa nova é amor
o pai severo errou
agora, porém, tu nos diz 

contigo aprendi
aquele que todos dizem tê-lo traído
só se lhe fez cumprir seu destino
o mais horroroso, pelas próprias mãos 
temendo perder amor

contigo aprendi
teu amor não é teu
é meu, de meus irmãos
falar de ti é invocarte 
contigo aprendi
os grandes mestres são ternos, eternos
tua morte mostra que o virtuoso
acima de tudo, de todos, acima de deus, é homem
eu também 

contigo aprendi
hora ou outra fraquejamos
mesmo diante do nosso destino desejo
questionamos justiça 
contigo aprendi
é difícil, mas devemos perdoá-los
pois são burros e não sabem o que fazem
nem que a mãe suplique por justiça

contigo aprendi sem buscar 
contigo aprendi sem rezar

NUKPOP

Quero tanto falar
Cantar o que é mais vital
Fechar os olhos, pular
Nunca mais ter que pensar

Você já viu 
Meu look from head to toe
Eu nunca quis 
Mudar porque alguém mandou

Música apresenta o zeitgeist, ímpar
Afeta, dá mais cor, brilho, contraste, vida
A indústria cultural pode ser vã, vazia
Arritmia da burguesia
Quero falar
O que dá corda ao coração é melodia
Fechar o olho e pular
I put on my headphones e melhora o dia

Fosse distração
Fuga do real
Baby, choro não
Jogo a bomba e sublimo angústia em som

Let us break free from the chains of pop
BOOM BOOM NUKPOP NUKPOP

Quero tanto falar
Cantar bem forte e dançar
Fazer a guitarra gritar
And blow up the uptight
 
Poder suave e rápido VROOM VROOM VROOM
Melhor que arma SONIC BOOM
A arte ocupa e se impõe
The pop machine não alcança o tom 

Fosse distração 
Fuga do real 
Baby, choro não 
Sublimo angústia em bomba
Nunca existiu dom
É labuta e dedicação
Só um pouquinho de inspiração
Free from these chains of pop

Eu queria dizer
Que é só prazer
Eu e você, porém
Dia a dia eu luto e entrego
Alma, coração, e o que não tenho
Eu invento pra nós

Saia da Sauna (Vou Dar Pala)

Eu vou dar pala
Eu só não quero
Encarar a vida de cara

De longe eu sinto a brenfa
Cheirosa e quentinha, a lenha
Bob Dylan e Paul McCartney deram uns tapas e o que faz mal
É o papelzinho porque a erva é natural

Phelps nadou sem problema
Bolt chegou de primeira
Vícios todos tem o resto é só moral
Cada um com sua cota bate mais legal

Se Gil chegou tão bem aos oitenta
Muito careta não faz e nem tenta
Enquanto uns investem em calmante coisa e tal
Eu só espero a flor nascer no meu quintal

Vamos sair da sauna

Vou pra frente do quartel

Eu vou, eu vou
Pra frente do quartel
Eu vou

Se tu não der o que eu quero
Me pinto de verde e amarelo
Com a mesma brocha que pinta o meio fio
Sou filho da pátria que pariu

Em 72 horas espero
Senhor, meu coturno é relo
Já perdi esposa, o trabalho e até meu filho
Me mandou pra Portugal de navio

Demando um cano bem longo
Remédio pra verme e piolho
Eu quero ver se me curo dessa gripe
Que peguei esperando o soldado e o jipe

Me dá logo o que quero
Não deixa pra depois
Se não largo aqui mesmo
Um número dois

Não existe morador de rua

não existe morador de rua
quem tá na rua não tem onde morar
a rua é passagem
quando a cercamos
e chamamo-la lar
ela deixa de ser rua
por isso ninguém mora 
na rua e não existe morador 
de rua, quem tá na rua 
não tem onde morar.

Daqui ao Caos

companhia
poderio e caos
um oceano nos unia
nos mantinha sãos

invade o coração
desde o princípio
jovem emoção
reagimos agora unidos
musovisão
provocanção

da estratosfera até o japão
flauta krenak
pulsa nosso vão

presentes como mãe
um suricate
brinde violão
ainda há os criadores
nuvem de som
meigo alçapão

anitta, adorno ou não
kpop, arte
hipocrisia fã

pobre membro do patrão
não há musas lá em marte

muito obrigado

cantoria fala 
escrita em naus
aeroplano
bruxaria alva 
céu e clã

e todos os quais
o encontro
fez-nos mirar
nos olhos
amo pensar
lixo  ma ra vi lho so
falqueiritar

as musas estão aqui

palco fica em casa
harmonia salva
o tom do clã

Refrão Anatema

Pus Theodor Adorno
Pra falar com Schopenhauer
Ouvir kpop e Cereja
Comer, do mais moderno
Descompromisso, a paga,
A virtude e a fama.

Se jazz chorões vendem
Que culpa Azul tem?
Se blues um quatro cinco 
não repetir dominante,
teçamenor quartaumentada,
Se não fosse este bar,
Esta barra de compasso,
Como tricot pode inovar?

Sob o Reino Carmesim
Nenhuma fruta nutre
Pança masoquista
Pois quem manda na pista
Sempre nua, dedilhada
Contagiante, virulenta,
Sufoca até dinheiro
Ignora ânus tatuado
Sempre kantiarmonicamente
Stockhausenrianamente bela
A desinteressada música
Ela não se vende

Jingle é margarina
Nem banha, nem manteiga, nem saúde.
Nem sabor, nem vitamina,
Propaganda só alucina
Cândido que ignora alaúde
Na guitarra princepiana
Da sônica Cobain juventude

Adorno, please, aprenda
Há, e violenta, diferença
Entre o que O Artista pensa
E a vã consciência
De quem não vê diferença

O lado Bê do tema
Modulado dois cinco pra lugar nenhum
Fez-me ouvir o Belo do grau um
Num refrão anatema
Fosse tudo eternidade
Não haveria duração

À Plutão

aqui é nossa bolha,
nossa nave espacial
nada nem ninguém entra,
eterna quarentena
dura, dura enquanto dura.
quero poder, 
trazer 
pedras, ervas, 
terra, o ar res
pirar sob o elmo,
nariz é vulgar,
mais violento que pudor
atentado, pois contaminado.

Atos mentos

Contra fatos não há argumentos
Contra atos não há fragmentos
Contra matos não há jumentos
Contra jatos não há monumentos
Contra gatos não há armamentos
Contra fartos não há alimentos
Contra patos não há pavimentos
Contra natos não há momentos
Contra ratos não há lamentos
Contra hiatos não há tormentos
Contra altos não há ornamentos
Contra chatos não há cabimentos
Contra pratos não há condimentos
Contra ingratos não acampamentos
Contra astros não há sofrimentos
Contra atos não há mentos
Contratos não aumentos

Rádio univer si tária

vim te ver
santa e bela
por ela mais vinte
dedos na tecla,
na tela, no ouvinte

vou fugir dessa mesmice à educação
perder um pedacinho de certeza lá no fundo do mar
lançar por esse estado mais mil formados
pra fazer desse cristal espelho sabão

vinte anos
somamos
ao termos mais vinte
danos, sopranos
compramos requinte

nas manhas do cu do mundo
belezas ímpar
vagabundas confessas
fronteiriça litorânea
uni versos idades
no universo de lages
hoje tou triste, pecador
perdi meu emprego, chicão
tá mandando no baixo, mas não
se escutam os sensei

vim te quebrar
a cara, rir
te humilhar
e pedir-te
beijos e carne
de porco é brinde
Proibir flor
nunca deu frutos

idos insones

às vezes a insônia parece
bater de um jeito que os olhos
mesmo fechados ficam abertos
envolve e pesa e afunda o corpo
cansado pede pra se virar
mas ela continua lá
ainda que a preta paz
do sonho insinue me velar
um trem parece que vem
me desperto alerto
mas não vem

eis que de repente um ruído de motor que ninguém ouvia
cessa

não era insônia
à luz do poste
pássaros piam

Tema de Jhuventude

Bem na verdade quero tua companhia
Todo dia navegar teu mar de tédio e paixão
Sem esperar dos negros olhos euforia
Dia a dia encantar estranho e tenro dispor

Mas vou dizer pra me deixares sozinha
Sem dizer que sim ou não, por que, por quem
Porém esta saudade vinha sem tuas jovens mãos de mel

Perdoa

Por te beijar
Por te adorar
Com mais palavras
Por te mostrar o quanto te quis
Por te manter cerca de mim
Pra te amar até o fim

Por depender
Tanto querer
Estas mãos fadas
Por te acordar a paz de mim
Por não saber viver sem ti
Por isso, amor, imploro
Me desculpe

Temos que construir um elevado por cima da ponte

Temos que construir um elevado por cima da ponte
Os ônibus estão cada vez mais vazios
As concessionárias cada dia mais ricas
E tem ponte que ainda não caiu
Tem gente que ainda acredita que carro acelera alguma coisa
Quarenta pessoas querendo entrar na pista da esquerda
Uma pessoa ouvindo rádio em ambiente controlado da chuva e do calor não acha justo
Todos pagamos impostos
A chuva pinga gelado mas o coletivo é caloroso
Tem gente
Que escuta música
Que lê
Que faz os dois
Ou nenhum
Ou chora, mas
Alguém pode reclamar
Alguém faz essa criança calar
Chegamos no Ticen