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Megaman Legends - O charme e a modernidade de uma joia do PS1


Megaman Legends é um jogo muito melhor do que eu lembrava. Tinha acabado de platinar Final Fantasy XV, quase 80 horas de campanha, e terminado The Last of Us mais a DLC Left Behind, dois jogassos intensos e emocionantes. Na hora de escolher o game seguinte, apelei à nostalgia e até comecei Megaman 7, um dos meus primeiros jogos de SNES, mas experimentando o Legends, e avançando pouco mais de uma hora, fui ficando de cara com a qualidade deste primeiro RPG da franquia do robô azul criado no ano que eu nasci.

Foi lançado para Playstation 1, mas eu estou jogando pelo Wii com controle de Gamecube, mapeei o controle para controlar a câmera com o analógico C, mirar com o L e atirar com o R, ficou bem parecido com os controles modernos. O gráfico é bonito, colorido, todo em 3D, é tudo bem quadrado e as texturas são simples, a própria movimentação do personagem, hoje, parece estranha nas diagonais, os labirintos são feitos nos eixos mais retos e as batalhas aproveitam os movimentos circulares justamente como parte do desafio. Senti falta de um sistema, mesmo que simples, de experiência, mas o jogo tem equipamentos, evolução e gestão de espaços limitados pra esses equipamentos, diversas armas secundárias, algumas mais difíceis de se encontrar. É divertido como acumulamos itens para Roll desenvolver armamento e peças novas pro Megaman, desde equipamentos que melhoram status, melhorias pro buster padrão, e mesmo melhorias na movimentação do protagonista, tipo aumentar a velocidade geral do boneco.

Se estou chamando de Megaman Legends já entrego que jogo a versão ocidental, porque a japonesa se chama Rockman Dash. A dublagem aqui é fraca, típica americana, sem emoção, completamente mecânica, mas as vozes estão bem caracterizadas, dão identidade pros personagens e, sinceramente, impressiona até mesmo que um jogo de 1997 tenha tanta dublagem. Não é um jogo tão longo, fechei fazendo quase tudo que podia com cerca de 15 horas de gameplay, é bem aproveitado e tem uns charmes na programação dignos dos melhores jogos mais modernos. Por exemplo, às vezes a Roll nos chama, com voz dublada, durante as dungeons, para dar dicas de como prosseguir nos labirintos ou mesmo só para conversar e aprofundar na construção daquele mundo e dos personagens, e a gameplay não é interrompida, podemos continuar andando e olhando ao redor enquanto ela conversa com a gente. Ela até avisa quando terminamos uns inimigos mais difíceis em no maior estilo Joel ou Ellie anunciando, como que pro jogador, que todos os inimigos foram derrotados e agora podemos explorar os redores em paz. Tem também um discretíssimo e divertido sistema de moral, em que a armadura do Megaman fica escura caso ele se comporte mal, por exemplo com aquela manha de ganhar dinheiro chutando a latinha jogada que tá no chão pra dentro do balcão da padaria. Este sistema de moral parece até alterar como alguns NPCs interagem com o herói, joguei me comportando bem, então quando interajo com algumas portas de casa no cenário, elas me retornam com as pessoas no interior rasgando elogios ao Megaman, acho que isso deve se alterar caso se esteja com o dark.

A trilha sonora não é o momento mais inspirado do jogo, as composições até são bem escritas e arranjadas, mas tem momentos em que se percebe nitidamente que aquelas flautinhas são um tecladista fritando pro MIDI numa melodia que, embora bonita, não é pra flauta. Tem bons momentos, na loja de CD me impressionei com a qualidade do jazz, e é uma pena que tenham tirado a canção pop Another Sun, interpretada por Reika Morishita, da versão americana. O silêncio dos labirintos, os pios dos passarinhos nas áreas exteriores, as dinâmicas, dão muito bem o clima de cada ambiente, tem faixas legais em cenas, e dá pra afirmar que é boa a trilha, mas algumas escolhas de instrumentos foram bem erradas pra músicas recorrentes, os temas de Apple Market e de Uptown, apesar de muito características, podem atordoar.

Estou honestamente impressionado com Megaman Legends, achei que seria só divertido, legalzinho de jogar, mas com a adaptação de controle que eu fiz, e me permitindo imergir naquele mundo, até me peguei refletindo junto da Roll quando ela se perguntou se o que eles estão fazendo, os diggers catando os refractors, não seria roubo. Fiz todas as side quests que encontrei pelos FAQs e gastei mais tempo do que eu deveria nos joguinhos na estação de TV, mas infelizmente não consegui o "Giant Horn", pra completar o museu. Já estou até me imaginando jogando o Megaman Legends 2, e recomendo o primeiro pra quem curte jogos retrô, uma exploração de leve de RPG, que não se importa com um controle duro, impreciso e com um sistema de tiros simples. A história é melhor do que eu considerava necessário e até provoca reflexões a mais em tempos de modelos de linguagem e inteligência artificial. É uma joia do PS1 e realmente uma pena que esta versão de uma das franquias pelas quais tenho mais carinho não tenha recebido, nem tenha previsão de receber, um terceiro capítulo.

Final Fantasy XV - Simples, imersivo, imenso



Em tempos de K-pop, um cara fã dos Final Fantasy VII, VIII e IX, olha pros protagonistas do Final Fantasy XV e se sente olhando um boy group coreano. Aprende-se que é um príncipe e seus três escudeiros e amigos, Ignis, Gladio e Prompto, em uma missão simples, levar Noctis, o sucessor do trono do reino de Insomnia, para se casar com Lunafreya e cumprir um tipo de profecia entre a família real e esta moça que é uma Oráculo. O game teve um desenvolvimento conturbado de dez anos, nascendo em 2006 como Versus XIII sob direção de Tetsuya Nomura, até mudar para Hajime Tabata na Luminous Engine e ganhar complemento com o filme Kingsglaive e o anime Brotherhood. 

A história engrena de verdade quando o Império de Niflheim invade a capital. Noctis e Lunafreya se conhecem desde crianças, a família real tem poderes especiais, razões místicas para serem considerados especiais neste mundo, e a Oráculo também é dotada de habilidades de cura. Este simples romance entre um príncipe e aquela de seu destino acontece no mundo de Eos, em um tempo que tem semelhanças com este nosso aqui, nosso real, pra além de leis físicas e algumas morais, tipo os carros e algumas roupas, mas que se atravessa com demônios pela estrada e ruínas e tumbas com espadas e Armas Reais mágicas. Com certeza há jogos com mundos mais vivos, FFXV já é de 2016, hoje tem 10 aninhos, mas é muito imersivo ver os monstros pelo mapa, organicamente em um habitat coerente, em dinâmica com dia, noite, chuva, os personagens falando sobre calor, frio e cansaço. Os NPCs ainda são um pouco à toa e algumas cidades são maiores do que a quantidade de pessoas na rua realmente denota, mas são ambientes vivos e bonitos.

De começo, o tamanho do mapa e a quantidade de missões paralelas faz o jogo parecer um pouco vazio de tão grande, mas a chave aqui ainda é imersão. Até as viagens automáticas mais longas com o carro Regalia podem se tornar divertidas se o jogador se permitir entrar no clima de ouvir trilhas sonoras de outros Final Fantasy e contemplar o trajeto, apesar de que há momentos em que pode bater certa aflição de ver a quantidade de missões e caças ativas naqueles que gostam de completar tudo ou quase tudo.

O sistema de experiência e subir de nível é mais um ingrediente na potência imersiva do game, acumula-se experiência com lutas e missões, mas elas só são computadas quando os personagens dormem, e ainda assim, alguns efeitos desses níveis só surtem quando os ativamos naquelas árvores de habilidades, aqui chamadas Ascension. Menos que burocrático, tudo isso dá sensação de que estamos tomando decisões. Dinheiro, gil, também não se ganha logo ao vencer batalhas, precisamos vender itens ou completar caças. O sistema de magia não é o mais envolvente entre todos os Final Fantasy, mas faz sentido com o contexto daquele mundo em que a família do protagonista tem poderes especiais para absorver e manipular elementos. Com isso, Noctis é extremamente poderoso, pode usar diversas armas diferentes e parte de sua missão é justamente ir à procura das Armas Reais de sua família em dungeons, o que contextualiza ainda mais os poderes de sua linhagem.

A trilha sonora tem destaque neste que pode ser considerado o 44º jogo da franquia, com outros critérios ele poderia estar para além da 80ª posição, mas nem sempre o destaque da trilha é positivo. Vai cair em questões de gostos pessoais, a trilha original do jogo foi composta por Yoko Shimomura, enquanto Nobuo Uematsu entra com as composições clássicas dos jogos anteriores que ouvimos na rádio do carro. No FFXV não tem um tema longo que toca em viagens pelo mapa em loop o tempo todo fazendo o jogador se hipnotizar com variações contínuas. Este o tema de Shimomura é curto, lindo, mas é interrompido constantemente pelas músicas de batalha, e das entradas no menu. Além disso, diferente de outros games da franquia, este é inundado de silêncios, climas tensos, que, em verdade, ajudam muito na imersão. As dungeons têm um climão, silenciosas, as viagens de carro ou são em silêncio ou ouvindo as trilhas de outros jogos que compramos pelas lojas com gil, e as viagens de chocobo são com o tema do chocobo ou com as mesmas trilhas e podemos ouvir de carro. Tem sequências tão sinistras que chegam a flertar com jumo scare, a lanterna no peito de Noctis quando está escuro enfatiza ainda mais o tom soturno. Aqui o problema jamais será falta de variedade, pelo contrário, é incrível a quantidade de músicas que se pode ouvir, da franquia original do I até o XIV, e mais músicas de jogos tipo Nier e outros da Square Enix, mas isso talvez distancie o jogador de se envolver com este jogo específico, naquela afetividade imensa que dá ouvir a mesma música na trilha de um jogo vezes e vezes seguidas. A trilha de uma cidade se modifica com o local desta cidade em que estamos com o persona, quando mais movimentado de NPC há mais instrumentos e dinâmica mais forte na música, enquanto em pousadas a mesma composição recebe um arranjo mais suave. Neste título da franquia, diferente de outros, em que a trilha serve de ambiente, aqui a trilha acompanha bem mais a cena. Isto já acontecia em outros games, claro, mas aqui é o fundamento.

O enredo principal parece absolutamente simples, um príncipe indo atrás de armas e entidades místicas, chamadas Astrals, para enfrentar o Império de Niflheim e enfim poder ficar com sua prometida, mas a delicadeza com que é abordada as nuances dessas famílias, dessas violências e desses amores é emocionante. Pra quem jogou Final Fantasy VI é legal também ver a reinterpretação dos Magitek, as animações das invocações, summon, são fenomenais e dão um baita senso de grandiosidade, e ainda tem até uma sequência emocionante como as clássicas em cima de trens em movimento. A relação de Noctis com seus escudeiros é posta de supetão e sem  precisas contextualizações para o jogador, ainda assim serve de ilustração de lealdade e dedicação aos amigos. Aliás, em quase todo RPG, controlamos um protagonista que é seguido por outros personagens, em muitos casos o líder é escolhido arbitrariamente por mera conveniência de gameplay, e aqui talvez não seja diferente, mas neste caso, sendo realmente o rei o tomador das decisões e super poderoso, até este personagem principal é justificado. A história principal não se aprofunda especialmente nas motivações dos companheiros do rei, mas ela ainda assim nos convence e caracteriza bem os temperamentos dos personagens não jogáveis. A relação entre Noctis e Luna é desenhada com maestria, simples e ingênua, me fez chorar de soluçar.

É um jogo bom, RPG de mundo aberto, com coleta e misturas de itens, NPCs divertidos, é cinematográfico, tem excelentes ambiência e imersão. As side quests recompensam com itens, experiência, fragmentos de história e segredos, e também têm cruzamentos com outros jogos, como Final Fantasy XIV, e até patrocínio com missão especial do Cup Noodles, mas são numerosas e um pouco extensas, há quem goste. Há dois sistemas de batalha, o Modo Dinâmico e o Modo Espera, só testei um, o dinâmico, não achei dos mais intuitivos e acho que ainda prefiro RPGs de turno, mas é divertido, e não é difícil. O que atrapalha demais a experiência das lutas são os obstáculos e a natureza pelo cenário que obstruem a câmera, somando isso ao clima muitas vezes escuro, não se vê nem entende nada do que está na tela. Recomendo pra quem gosta de jogos longos, fantasiosos e imersivos, dá pra passar quase uma centena de horas com o game, tem uma pegada de Final Fantasy I, Dragon Quest I, Noctis até poderia ser um desses herois silenciosos. Entretém, diverte e emociona quem se permite imergir naquele simpático e conturbado mundo.

Os piores filmes

The Room, porque é ruim em tudo, não há nada, é esqueleto de um corpo doente, um clichê, desnutrido, come qualquer coisa. Enredo fraco, personagens ruins, cenário qualquer, texto mal escrito, fotografia sem propósito, som mal colocado, edição mal feita. Mas este filme nos revela segredos, a virtude de Wiseau é fazer da pior maneira o possível o que a Globo e Hollywood se esforçam para maquiar.

Eu não faço ideia do que estou fazendo com minha vida, de Clarice Falcão, e de fato não sabia, nem deveria tê-lo feito. É parecido com The Room, não há o que assistir, mas compadecemos porque ela tenta, é deprimente. Tenta fazer diálogos que interessem, reflexões cativantes, tenta, logo não consegue. Wiseau não tenta, faz, e da melhor maneira que consegue, sozinho, e compôs algo imbatível. Este filme da ex Porta não tem porque.

Minha mãe é uma peça deveria ser drama. A personagem mãe do autor é tão preconceituosa, tão grosseira, asquerosa, é sujeito mais desagradável que David Brent ou Michael Scott, com a diferença que neste filme da Globo a piada não é o palhaço do canalha que faz piada com gordo, mas o próprio conteúdo da piada, como se a expressão rolha de poço ainda tivesse algum resquício de graça. Nunca teve e não tem. A mãe passa o filme inteiro humilhando os filhos gay e gorda, sem dar a mínima atenção para o adulto, hétero, casado, sob a justificativa de que este já está resolvido. É uma mãe que ignorou o filho que fez como ela queria e humilhou os que não quiseram ser ignorados. Há mães assim, que amam no abandono e na humilhação. Não entendi a comédia do filme, uma única cena em que a tal mãe conversa com sua irmã e falam mal de homem, ali ouvi piada, clichê, mas com alguma graça. Não terminei de assistir e acho incrível que haja continuação. A única atriz que nos convence de ser o personagem que é é a gorda, boa artista, mas não sei como se prestou a tamanha humilhação.

Nunca assisti Transformers, não lembro de Velozes e furiosos, e outros como Homem de Ferro 2 e os novos de super heróis, tenho certeza de que todos merecem lugares em listas deste tipo, mas não pecam em produção e costumam agradar parte da demanda, o grande defeito é serem tão comuns e irrelevantes, são mais caros, mas como entretenimento não são tão diferentes de programas domingueiros de auditório, o público é que é diferente, a oferta só se adéqua. Blade Runner não mereceria estar nesta lista, mas não suportei terminar de assistir.

Ontem assisti o francês Raw no Netflix. Não sei em qual o gênero pretende se encaixar, mas é o mais aterrorizante que já vi. As cenas do trote universitário, o professor cuzão, tudo nos deixa angustiados e ansiosos. Eu deveria ter percebido que seria um terror, gênero que detesto, na cena da biblioteca, em que o diretor coloca a irmã da protagonista para nos dar um susto gratuito. Nada de mais, gratuito mesmo. Não consegui me manter fitando a cena em que personagem vomita o muito cabelo que comeu. A última cena que suportei foi a em que a irmã mais velha força a virgem mais a nova a se depilar, sob a justificativa de que todas as meninas fazem, em nome da abstrata beleza. Não bastasse a tortura da própria dor física de depilar-se a que muitos se sujeitam, a protagonista o fez contra a vontade, suportando a tortura de não negar uma gentileza da irmã em nome de um padrão. Após alguns golpes de cera, a irmã mais velha percebe alguma merda que fez e decide usar uma tesoura grande e de ponta para concertar sei lá o que próximo à vulva da irmã. Talvez este seja um filme sobre o pior possível, se na ausência dos pais só ocorresse o pior. A caçula grita uma frase que devia ser simples a toda mulher entender, minha vagina, e chuta a mão da que empunhava a tesoura decepando a ponta de um dedo. Não consegui nem parar o filme, a Jhu que o tirou, meu desconforto foi tão grande, senti ânsia de vômito, pernas fracas, mãos trêmulas, fiquei não sei quantos minutos no banheiro chorando, e não à toa este é o parágrafo mais longo deste texto inútil e catártico, a angústia é real, este filme é terrível. Talvez seja a proposta, é infinitamente pior que a fantasia de Jogos mortais, ou mesmo a crueza de Faces da morte, foi uma das piores experiências que vivi, pior que parque de diversão, pior que descer o fosso de luz do meu prédio para resgatar o Pipoca, este filme me assustou mais que apanhar, foi um golpe nalgum trauma com que não quero lidar, não recomendo a ninguém que sinta.

Ouça toda a obra do Foo Fighters em uma única música


O último disco do Foo Fighters pra que dei atenção foi o One by one, mais porque já gostava do Nothing left to loose e quis conhecer mais da banda do cara que já havia tocado com um de meus compositores favoritos, Kurt Cobain, do que por ter curtido o primeiro single, All my life. Este disco até tem bons temas, mas não me desperta o interesse como os anteriores, parece que é aqui que Dave Grohl começou a se repetir e parou de se esforçar tanto pra compor, pode até ser coisa de gravadora. Quando lançaram Best of you rompi com a banda. Foi político. Tema monótono, repetitivo, texto raso de auto ajuda, cafona, clichê, parecia aula de como escrever música estilo Foo Fighters, com um quê de Coldplay. Só de pensar sobre, ela se cola feito chiclete ou cocô de cachorro pela calçada. Terrível. Não mais fui atrás, evitei, não ouvi mesmo.
Hoje meu amigo Arthur Brotto perguntou se eu havia ouvido a última música lançada por eles, que estava ouvindo, e esta era igual a todas as outras, que nem quis ouvi-la inteira. Enquanto eu abria o vídeo imaginava, vai ser forte e melódica como Times like these ou aquela forma dinâmica estrofe piano refrão forte que se faz desde os idos de 1980. Foo Fighters tem poucas formas musicais, por exemplo a que se mantém baixa sussurrada, como nas belas Walking after you, Aurora, Tired of you, e tantas outras. A que se mantém forte, Dave Grohl, que é ótimo cantor, faz dinâmicas expressivas, como na clássicas My hero e Everlong. O que varia é o arranjo, até a tonalidade das músicas se repetem, o cantor é bom e técnico, não costuma sair de sua tessitura, que é grande. Todas essas formas, todas as ideias, aparecem no primeiro da ainda banda catártica de um homem só, já em 1995.

Uma crítica mui adequada a esta crítica é de que eu não conheço, nada, do que produziram entre 2004 e 2015, são 10 anos.

Eis que retorno a hoje. Abri o vídeo de Run sem muita expectativa, e todas elas foram atendidas. A música começa suspirada e piano, o cantor varia sua dinâmica junto da banda, como o esperado. Quando o tema entra parece recuperar Weenie beenie do primeiro disco, surpreende, depois entra um refrão melódico que emenda no primeiro tema, a banda forte, o canto dinâmico, como nas clássicas, é um bom arranjo. Dave Grohl aqui parece se usar de todos os recursos que aprendeu durante sua carreira de compositor, o cantor mostra seus melismas, gritos, suspiros. É uma música completinha. Arthur disse que eles estavam para lançar um disco completo ma por enquanto só esta música. Mas acho que o pessoal, não entendeu, é isso mesmo.
Agora que ouvi a música pela segunda vez ela já me pareceu mais tediosa. O vídeo é bonito. Achei linda a insurreição dos idosos contra as imposições de uma psiquiatria asilar. Foo Fighter sempre foi bom em vídeos, Dave Grohl sempre trabalhou muito, e fez bem tudo o que fez, nos diverte como ator, é bom guitarrista, ótimo cantor, como compositor não decepciona seus fãs, mas pra isso se repete, talvez por gosto ou por ofício, não quero moralizar, mas fazendo meu juízo de gosto, prefiro não.

Melhor do que parece, O Terno



Delay, reverb, bonitos, protagonistas. A mixagem importa. Tim Bernardes tá cantando bem, bateria de Biel Basili presente, baixo de Guilherme d’Almeida maccartneyano. Bom refrão. percussão, a guitarra sempre bem timbrada, o fino do rock. A faixa de abertura, Culpa, é bonita.

Segue bem, se eu já tinha achado o nome da primeira faixa cristã, o órgão e a solenidade da introdução da segunda faixa quase confirma. Faixa divertida, dinâmica, bem arranjada, tá me fazendo pensar no título do disco.

Álbum dinâmico, desperta a curiosidade. O pan aberto, instrumentos separados, às vezes o baixo está à direita, charmoso, não chega a desequilibrar. Arranjos de voz bonitos, harmônicos. O C da terceira faixa caiu bem, inesperado, moderno. Uma alegre celebração amorosa, um ode.

Os arranjos estão realmente bonitos, cordas, vozes, percussão, mais a banda, baixo, bateria, guitarra e órgão dinamizam a leve repetição inerente a toda forma canção. Até aqui, todas as canções começam e terminam bem.

O Terno é uma banda de rock, fazem como os clássicos, misturam bolero, se atrevem na harmonia, na dinâmica, mas são rock. Percebem-se as referências, mas desenvolvem sua originalidade.

Eis que surge um samba, irônico, jocoso. Até o trompete parece caçoar, saturado e distorcido, bonito. Samba rock n roll.

Romântica, Volta, começa psicanaliticamente, nasceu amando. Me emocionou, deu saudade de minha namorada. Minha faixa favorita do disco.

“Minas Gerais” sobe levemente a dinâmica e muda de assunto, um rock exaltação, tipo Belchior. As referências são questionáveis, eis um bom compositor, o que bem disfarça suas fontes.

“Deixa fugir” não me convenceu, parece primeiro disco da Los Hemanos, com umas modulações sem graça ao final. Tou achando que o final do disco pode sofrer de uma síndrome do coda preguiçoso, também conhecido como encheção de linguiça porque o disco precisa de mais faixas.

Houve um tempo em que eu esperava pelo lado B dos discos. Os lados B do Silverchair, por exemplo, costumam ser minhas faixas favoritas, mas hoje parece mais obrigação de contrato, cumprimento de horário, como dizer que o disco precisa de 10 faixas. O último do François Muleka, O limbo da cor, não me causa essa sensação, mas o seu Feijão com sonho sim.

A penúltima faixa desperta o ouvido novamente, é uma bossa nova, curta.

O texto da última é uma queixa que já havia aparecido no repertório d’O Terno, o tédio das músicas novas. É um compositor realmente preocupado com sua obra, pesquisador, eu particularmente me canso do rock, mas é um gênero libertino, permissivo, um compositor que saiba se aproveitar do gênero pode compor boas canções, melhor do que parece, como esse disco. O final do álbum ficou Oasis, podiam ter aproveitado melhor os metais no final, mas tudo bem.

Qual a graça de Artic Monkeys?


Na primeira faixa, um rock riffado, bem timbrado, moderato. Bem produzido, familiar.

A segunda faixa, outro rock riffado, estrutura parecida na relação estrofe e refrão, convenções bem ensaiadas, no ao vivo eles devem ser mui envolventes. A saída do C pro retorno do refrão tem dinâmica, silêncios, as frases andam pelas cordas, mas particularmente, coisa de gosto pessoal, sinto falta de modulação, contra pontos mais interessantes.

Na terceira faixa eu já tou um pouco entediado, mas não tou prestando atenção no texto, pode ser bonito. A melodia em oitava, e no refrão as vozes se polifonizam. Esta faixa tem novidade, mas acho que em comparação com as outras. Acho que eu só ando cansado do rock, mas são bons compositores.

Até a quarta faixa, todas canções seguem a fórmula do riff dinâmico, parece essa a pesquisa deles. Por aqui tou mais dentro da estética, começo a me interessar mais, reparar em detalhes.

Todas as músicas parecem usar recursos muito semelhantes, pode ser estética, mas é muito gênero. A melodia em oitava, a guitarra dobrada, as convenções com pausas, o refrão forte a estrofe piano.

Ouçamos agora essa com piano. Mas já não é um clichê? Toda banda de rock precisa de um andante com piano e violão de aço? Ai, o VIm, sempre cai bem, mas depois daqui é um clichê atrás do outro, o I(#5) depois IV, IVm.

Os discos de rock parecem seguir ainda a tendência dos Beatles, que o fizeram assim porque era novidade. Como uma forma Sonata, Allegro, depois Andante, depois uma dança e fechar com outro Allegro. O lado B clichê do rock é esse piano cafona com essas progressões clichês. A música é bonita, mas não tem novidade, ou não sou sensível a elas. Fazer como os mestres é fazer diferente deles.

Critico porque vi este disco, AM, conceituado como melhor disco da década de 2010. Nem de longe. A mix não é melhor que do que o último d'O Terno, bem parecidas, inclusive, "Melhor do que parece" me parece ainda mais atrevido com o pan, as timbragem das cordas, os gêneros.

Agora tá tocando um folk chatinho tipo Velvet Underground, Mad Sounds, que já era chato com o Lou Reed, mas ao menos era novidade.

Acho que disso muitos compositores carecem, e eu só sinto falta porque é algo de que gosto, tenho certeza que muitos apreciadores assim gostam e até preferem, sons familiares, que lhes caia bem e facilmente aos ouvidos. Eu sinto falta do estranhamento, do encantamento, com o disco d'O Terno me emocionei, com "Tropix" da Céu fiquei curioso, se falar de discos de mestres desta década como de Prince, Van Dyke Parks, ou Tyler, the Creator.

Tem até direito a backing vocal de chuá chuá.

"Snap out of it" tem uma pega Panic at the disco, se atreve mais na harmonia, mas me faz pensar em como "If you keep losing sleep" do Silverchair é a melhor canção nesta pesquisa, com arranjos do Van Dyke, deve ser até referência pra esta faixa do Artic Monkeys.

Gostei do C de "Knee socks", eu já tava até distraído, mas a voz diferente, a leve harmonização, já faz alguma coisa acontecer.

A última é quase um R&B, mas a essa altura tou achando chatíssimas essas vozes em oitavas, coisa de moda. Essa música pode ficar bonita com um bom arranjo.

Que bom que os caras estão compondo, participando da cena, tomando a frente e incentivando novos artistas, mas a mim não agradou, mais um disco de rock, nada mais. Riffs, clichês, uns folks, uns pianos e tudo saturado, o que até acho bonito, mas a mim o que interessa na Arte não é o belo mas sua capacidade de criar novos desejos, portanto novas subjetividades, novas possibilidades de existência, este disco me parece repetir um modo existente, por ofício, por apreço, tem contexto e relevância, mas como obra de arte não me apetece.

No começo dos anos 2000 King Crimson já caçoava com isso.

Review de "Talk", o primeiro disco solo de Daniel Johns




Escutei bastante o "Talk", disco novo do compositor do Silverchair, Daniel Johns. Gostei do que ouvi, no entanto não há muita novidade durante o disco, e o elemento surpresa é do que mais gosto na música de Johns, que está entre meus compositores favoritos, Paul McCartney, Michael Jackson, Tom Jobim, Prince, Beethoven, ainda outros, como Van Dyke Parks, que trabalha nesse disco como arranjador de "New York".

Gosto do primeiro single, "Aerial Love", tem uma boa melodia, frases longas, não muito óbvias, mas a estrutura geral é repetitiva. Aliás, durante todo o álbum tenho a sensação que a mixagem das partes, os arranjos, não são tudo o que poderiam, fui realmente notar na beleza desta melodia quando ouvi uma releitura pelos New Black Shades, as batidas não são muito fortes, marcantes, as viradas me parecem apenas preencher, "Warm hands" me dá esta sensação.

Até "Cool on fire", o segundo single, do qual não gostei muito, o álbum soa limpo, pop, Johns está cantando bem. Então "Imagination" me surpreendeu, adorei a letra, a música tem uma pegada Prince, a guitarra pipocando aqui e ali, eu realmente esperava mais músicas como esta, a batida é espaçada e dançante, outro aspecto de que gosto nas músicas de Daniel, como em "Steam will rise", "Hollywood" e "The man that knew too much".

Da faixa 7 em diante começa o que creio ser o "lado B" do disco, sempre meu momento favorito no Silverchair, "Petrol and chlorine", "Dearest helpless", "Tuna in the brine" - das minhas músicas favoritas de todos os tempos, arranjada também por Van Dyke Parks -, mas em "Talk" fiquei esperando mais músicas mais diferentes, todas parecem ter o mesmo clima, não gosto disto, parece pop comercial, "Faithless" é uma canção de que não gostei nem um pouco.



Mas então há "New York". Sim, senhor Daniel Johns, agora estamos falando. Melodiosa, harmonia densa, surpreendente, tensões de emocionar, esta eu diria que tem um forte aspecto silverchairiano, se reconhece o compositor, mais que em "Going on 16" que a banda chegou a tocar ao vivo, mas que me soa mais como as lançadas em singles "Barbarella" e "We're not lonely... but we miss you", mas não tão legal. "New York" tem a potência de uma grande música, como "Across the night" e "All across the world", todas as três arranjadas pelo parceiro de Brian Wilson em "Orange crate Art" e "Smile",  o barroco e pop Van Dyke Parks.

Gostei dos sintetizadores, ótimos timbres, mas Kimbra em "The golden echo" ("Teen heat", "Miracle" e "As you are" foram compostas em parceria com Daniel Johns), por exemplo, parece estar fazendo um pop mais original que o de "Talk".



Há mais sobre "Talk". A última música é boa, "Good luck", estranha de alguns jeitos. O refrão de "Too many" é bonito. "Dissolve" achei cafona. Gostei.da batida e da ponte de "Sleepwalker". As outras músicas não me cativaram muito, "Good luck" tem seu mérito pelo timbre e um certo estranhamento.

Creio que se fosse um disco mais curto, ou com mais dinâmica, quem sabe com participações ou mesmo variar no gênero das músicas, seria um discão, tem potência de um pop de seu tempo, mas Daniel Johns costumava estar a frente.