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Rock brasileiro em português ou inglês?

Particularmente, prefiro bandas nacionais cantando na própria língua, mas talvez seja só questão de valor próprio. Acho bonito que um artista sinta desejo de fazer algo pela linguagem que o constituiu.

Me parece que há alguns motivos diferentes pra pessoa compor especialmente em inglês.

Uma intenção internacionalista, de assumir a convenção de inglês como língua internacional, como acontece na internet, o cara compõe assim pra ter alcance internacional.

Um juízo estético, de sentir que o rock em português causa estranhamento, fazem analogias com gêneros de que não se gosta, como o sertanejo, pra justificar a preferência. Em minha opinião, esta intersecção em particular entre o rock e o sertanejo é muito pertinente, tem muitos aspectos semelhantes, desde origem até figurino. Noutro nível, acho que de estética das línguas ou coisa do tipo, acho que o inglês ainda oferece outra facilidade que é de ter muita palavra monossilábica.

O que acho mais interessante são os que dizem que em inglês o sentido da palavra não é à priori, tanto pro ouvinte, que se permitiria estar mais sensível aos afetos próprios da música, como melodia, harmonia, ritmo, etc, quanto pro autor, que pode se expressar com mais segurança de não ser compreendido. A meu ver este é o aspecto mais importante e o que mais mantém o compositor escrevendo noutra língua, porque acredito que a palavra, a expressão, o sentido, é o que temos de mais valioso. Escrevemos noutra língua pra poder falar sem dizer. 

Pessoalmente, gosto muito de ouvir música japonesa por serem lindas e por não entender grande parte do que dizem. Nas músicas em inglês, mesmo as que canto e ouço desde adolescente, curto palavras sem me dar conta de todo o sentido. Mesmo em português, muitas vezes em cantar ou ouvir de novo de maneira nova uma canção me dou conta de outros sentidos. Por fim a música instrumental, que tem sentido e ninguém sabe qual é.

Não me parece se tratar só de qualidade, quem comenta que o que importa é que seja bom não responde a questão. Entendo o seguinte, do universo das músicas que se considera boa, prefere-se as nacionais em português ou inglês? A não ser que a pessoa não goste de nenhuma música brasileira composta em inglês, Sepultura, Angra, Cobalt Blue, "Chansong" do Tom Jobim, "London, london", "You don't know me", e outras do Caetano, algumas do Gil, e por aí vai, não sei se alguém se atreveria a dizer que o rock nacional em português que mais detesta é melhor que o rock nacional em inglês de que mais gosta. Pra questão fazer sentido a qualidade deve ser abstraída.

Também não gosto dessa posição relativista, esse papo de que gosto não se discute. Aqui não nos esforçamos pra mudar o gosto de outro, só estamos justificando nossos próprios, estética é um assunto muito legal e relevante. Me parece até o contrário do que deve fazer alguém que se diz sensível à arte, isso de se fechar à troca de ideias. Então, tem coisas óbvias também, cada um faz o que quer e escutar o que quer, também não acho que seja a questão, mas sim justificar a escolha, a preferência.

Não acho também que a qualidade da dicção, precisão gramática seja relevante ao gosto, a língua é viva e muda, o próprio português brasileiro, inglês americano, é cheio de adaptação. Falar correto é falar como um americano, ou inglês, ou nigeriano, ou sul africano, etc?

Daniel sempre mandando bem e colocando a galera pra refletir sobre seu próprio trabalho, acho que nem sabes o quanto contribuis pra qualidade da música do nosso estado pra além da questão informativa, mas de formação de público e do próprio artista, que vai procurar refinar seu trabalho pra chamar tua atenção.

Falar sem dizer

Escrever em Inglês pode ser uma escolha estética. Ele tem texturas, cores, sons, prosódias diferentes de nossa língua mãe. Muitas palavras são monossilábicas, e alterações de prosódia não mudariam necessariamente o sentido. Pode ser também uma adaptação à linguagem internacional, de mercado, em especial da internet, onde por decreto, ou não, é língua padrão, e das mais faladas no mundo se incluirmos segunda língua. Mas se fosse esse o caso, também veríamos conterrâneos nossos escrevendo em Espanhol, quiçá em Mandarim, o que não acontece.

Ouço nas discussões sobre o assunto um julgamento de gosto em cima de duas justificativas: que outros compositores pelo mundo também escrevem em inglês; que os artistas devem ter a liberdade de escolha e isto não deveria servir de crivo ao público. Bandas Brasileiras que tem o repertório em Inglês costumam circular em nichos específicos do gênero, como no Metal, Punk, etc, onde, talvez, o público releve a língua falada por priorizar outros atributos dessas músicas. A meu ver a discussão se perde aqui - pouco importa o gosto pessoal de cada um. Na medida do possível, em abstrato, o que pode representar cantar em inglês? A construção do argumento elucidará nossa preferência.

Por fim, sinto que compondo em Inglês o Brasileiro se isenta da responsabilidade do que está dizendo. Não seria absurdo dizer que a maioria do público de cá não entende Inglês, ao menos de imediato, sem precisar traduzir. Para este sujeito o sentido do que se diz chega muito depois do sentido musical, digamos - harmonia, melodia, ritmo, etc. Há músicas - RAP, repente, por exemplo - em que o texto é protagonista, há outras, incluo aqui a bossanova e o jazz, em que o texto é, ou pode ser, coadjuvante. Sinto, e isto é bem pessoal, que bandas Brasileiras compõem em Inglês pra não se implicarem naquilo que estão dizendo, poderem dizer sem fazer, a priori, sentido. O sentido, aquilo que se sente, fica a cargo de potências, digamos, musicais.

Pessoalmente não acredito que seja na capacidade cosmopolita do Inglês que nossos compositores mais se apoiam pra compor, por mais que assim o afirmem, mas nesta espécie de facilidade e pouca implicação com o que se diz. Exemplifico o que digo com uma música minha, composta aos 13 anos. Nesta época eu utilizava o Inglês sem nenhuma razão ou censura, Bernardo Flesch que me fez revisitar este tema, e hoje leio nesta minha ingenuidade um deboche contra isso de escrever em Inglês.



Outra música minha, mais recente, precisamente sobre este tema é "If u r wrong (do it all again)". O texto repetitivo, falando sobre fazer errado e tentar de novo, é uma provocativa - no caso, a mim mesmo - pra continuar fazendo, tentando e errando, fazer poesia não é simplesmente escrever o que se quer dizer.

Brasa Brasil

Vai reconquistar Pindorama aquele que falar em Cultura, esta terra queima em desejo e palavra, dinheiro é um pedaço de papel. 

Os peles multicolores são curiosos e gulosos, ganância é pros pobres, trabalha porque se precisa, preciso é nos apropriarmos agora do ideal do ócio criativo, e o tal Brasil vai conquistar o mundo.

Do estabelecimento do português na carta de Pero Vaz ao estabelecimento do brasileiro na bossanova, o desapego e a fome da Tropicália e Cinema Novo, a vanguarda da poesia concreta, a baixaria dos anos 1990, ainda não nos damos conta de que nosso objetivo é antropofágico.

Falar em economia é importante, mas não falta nada, falta produzir.

Portugual, Tupi, Itália, Guarany, Japão, Kaiowá, Alemanha, Xokleng, Turquia, Yanomami, e mais quem nem quis vir filhos da África mãe. Brasa Brasil, Babel é aqui.

M acho

Macho é o cachorro,
O elefante, o mosquito.
Sou qualquer coisa
Além do macho. Bicho
Homem tem palavra
Adequada aos punhos
Da razão. O coice
Dá majestoso o gado.

Este corte nos lábios
Rubricam meu contrato
Com a força da família,
Dos amigos e instituições.

No processo fiquei rico,
Não corro mais perigo
De faltar com compaixão.

O que viu meu amor
Cegueira branca é mais branda.
Literaturação.

Já estou mais calmo,
Paranoia fala alto
Mas fala em catalão,
Não entendo seu sentido,
Ignoro sua intenção.

De repente eu rimo
Por pura distração.
Vou deixar de ser girino
Virar sapo ou sabão
Ou papo ou não.

presença ausente

o charme da saudade
é presentear a ausência
de quem se ama.

sad is
to miss:
said long
love lost.

... espera a palavra certa.

A noiva no altar
O avião parado na pista
o poeta ébrio
o paciente sóbrio
o aluno e seu tédio
A mamãe de seu bebê
O eleitor alienado
O surfista no radinho
O estressado no trânsito
Aquele ajoelhado no templo
O curioso no livro
Aquele que vai
O triste que fica
O doente na cama
No conselho do amigo
No dia de seu velório
O colecionador de pássaros
Aquele que pede comida
Quem se acha feio
Quem se acha linda
Quem não quer saber nada