Natucha Landom: Você com certeza já
está ouvindo, e até gostando, de música feita por IA.
Gau de Beirute: Não, não estou.
Natucha: Cara, produtores de música
com IA estão sem limites. No “Descobertas da Semana" do
Spotify hoje, vieram três seguidas. Duas eu notei de cara que foram
geradas por IA, mas vou te falar que a terceira até ficou legal! Fiz
o desfavor de curtir a música, mas porque ficou irada!
Gau: Não existem produtores de música
com IA, o nome disso é alguém que digitou um prompt.
Gomles Linhas: Ou é, sim, um produtor
de música, alguém que realmente compôs, mas que por vários
motivos nunca conseguiu gravar e faz covers das próprias músicas
por IA até acertar. Eu já tinha muita coisa pré produzida,
inclusive com guitarras guia gravadas e vocal, apesar de eu não ser
vocalista nem cantar bem, sempre cantarolei do jeito que deu para
passar para os vocalistas com quem trabalhei. Você usa essas coisas
pré produzidas, lança no prompt o estilo e ele vai entregar algo na
linha, como se você recebesse um cover bem produzido de uma pré
produção ou de um esboço tosco. Acho que a única coisa que falta
é aceitar MIDI direto, aí seria muito bacana. Se você não quer
ter isso como resultado final, é um ótimo ponto de partida.
Gau: Esta pessoa ainda só quis
compor, mas não compôs. Existem formas simples de escrever e gravar
aquilo que criamos. É ainda impossível fazer uma IA entender
aspectos formais da música, harmonia, melodia, contraponto,
dinâmica, arranjo, etc., só com prompt. Achar que receber um cover
bem produzido de um esboço tosco é o objetivo final da composição
é de partir o coração. A estética nasce da fricção, da angústia
em preencher o que nos falta. A IA não cria, só calcula
interseções. Pode ser uma ferramenta de produtividade, mas é o
oposto da criação estética.
Gomles: Você não sabe como funciona.
Não é só com prompt, é com áudio de referência também. No
SUNO, você manda uma pré-produção tosca, um WAV que você
exportou de MIDI com um instrumento fazendo a melodia vocal, escreve
a letra lá e vai ter um resultado razoável. Podemos gravar na hora,
cantarolar do jeito que conseguimos, batucar como se fosse a bateria,
tocar num violão e explicar que seria uma música de determinado
estilo, com tais instrumentos, e ele vai te entregar. Sobre o que
você disse sobre harmonia e dinâmica, também não é bem assim. Se
você manda um áudio de vocal, ela consegue criar harmonias em cima
a partir do que você pedir no prompt. Ou seja, você pode ficar
horas gravando 200 linhas de vocal para ter harmonia, ou grava uma e
cria as outras. Dinâmica? Entende, e muito. Alucina, como qualquer
IA, mas costuma entregar bem. Para o vocal, você consegue pedir para
sussurrar, empregar técnicas específicas nas partes, narrar. Tem
muito recurso.
Gau: Entendo a praticidade, mas o meu
ponto é sobre a natureza da escolha. Você entende que não há
ninguém sussurrando, nem narrando absolutamente nada, não há voz,
são espectros sonoros manipulados algoritmicamente Toda solução
que a IA encontra, na harmonia ou na dinâmica, é uma solução que
não precisaria mais existir, ela é apenas uma média algorítmica
do que já é comum. Isto não é compor. Não basta assobiar uma
frase musical, quase um pio de passarinho, escrever em linguagem
natural para o robô que você quer, por exemplo, misturar samba com
Led Zeppelin e, com isso, achar que se está compondo música. Não
está. A harmonia que a IA sugere para uma melodia cantarolada é uma
que se poderia, inclusive, evitar, para não se cair em lugar comum.
Ela escolhe o caminho de menor resistência, o mais provável
estatisticamente. A criatividade aparece no erro, na nossa limitação
e naquilo que não sabemos como resolver estética ou formalmente.
Quando você pede uma linha de baixo ao estilo Rush e a IA entrega
exatamente o esperado, ela mata a possibilidade de afeto, catarse ou
sublimação. Compor é o esforço de solucionar um problema que a
máquina resolve com cálculos e probabilidades. Quero dizer, ali
onde a IA encontra o ordinário, a arte deve buscar o singular.
Gomles: Também é de partir o coração
eu ter umas 40 músicas, muitas prontas há mais de 20 anos, e não
ter conseguido gravar nada além de oito. Não quero ser um Bach que
vai ser redescoberto anos depois da morte. Na verdade, só quero
poder apreciar minimamente o que criei. No fundo, tudo isso é fruto
de um antropocentrismo. A IA não deixa de realizar suas funções
apenas porque se recusa a aceitá-la. É a mesma resistência que
havia com sintetizadores e, depois, com VSTs. Não haveria Michael
Jackson ou Kate Bush se seguissem só com o analógico.
Gau: Sim, cara, é triste, mas é a
sina do compositor. Escrevemos e imaginamos, mas nossa arte só ganha
vida na prática, no coletivo, mesmo que esse coletivo seja feito de
sessões solitárias em overdub, só um músico e a música, gravação
solo com vários instrumentos, um de cada vez. Para apreciar
minimamente o que criamos, basta cantarolar, tocar no violão ou no
piano, enfim. Colocar a IA para fazer o resto, o que você não teve
capacidade de fazer, não é compor, aquilo que a máquina te
apresenta é resultado de cálculos e algoritmos, não da tua
criatividade. O que você assobiou até poderia se tornar música,
mas o que a IA te devolve é apenas ruído organizado por cálculos
algorítmicos, fazendo médias com o que há de mais ordinário.
Ninguém aqui está criticando o digital, só estou dizendo que ditar
para uma máquina o que você gostaria de ouvir não é fazer música.
Isso não tem absolutamente nada a ver com sintetizadores ou
bricolagem de samples, porque, nesses casos, ainda há manipulação
direta do som. Com a IA, é só prompt, é texto, não é música.
Gomles: Isso é exatamente o que o
Sindicato dos Músicos dizia sobre os sintetizadores em 1982, que era
algo mecânico e sem alma. No entanto, aqui estamos nós, décadas
depois, reconhecendo essas faixas de sintetizador como peças
icônicas da expressão humana. A ferramenta não define a arte, a
intenção por trás dela, sim. Eu vivi essa guerra dos sintetizadores dos anos 80, e é exatamente por isso que sou um defensor ferrenho da IA hoje. Se você acha que a IA vai matar a arte, você está apenas repetindo um roteiro que tem 40 anos. Eu já vi esse filme antes e, alerta de spoiler, os humanos vencem.
Gau: A IA ainda é diferente, ela é
apenas texto e comandos em linguagem natural. Essas críticas que
certas pessoas poderiam fazer aos sintetizadores, provavelmente elas
também fariam em relação aos instrumentos temperados centenas de
anos atrás, mas tanto nos sintetizadores, quanto no cravo bem
temperado, há um músico manipulando som. A IA não vai matar a arte porque
o que ela faz simplesmente não é arte.
Gomles: Como não há nenhum registro
gravado de Bach tocando todos os instrumentos e cantando suas
músicas, podemos dizer que ele não era compositor, já que ele só
escrevia? Uma coisa é compor e outra é interpretar, executar. Se a
IA é a intérprete, a música primeira não deixou de existir.
Gau: Achar que escrever uma frase em
linguagem natural é a mesma coisa que basicamente inventar
contraponto, empréstimos modais e deixar tudo escrito em um código
próprio para a música, que, de tão bem construída, é estudada e
replicada há quase 400 anos, é, de verdade, de partir o coração.
Bach não descrevia uma música triste em Sol menor, ele construía a
tristeza nota por nota, ponto contra ponto. É por isso que admiramos
tanto músicos virtuosos como ele, Prince, tanto ou mesmo os menos
técnicos, mas visceralmente autênticos, como Kurt Cobain. É
difícil fazer música. Escrever a descrição de uma imagem não é
desenhar nem pintar, pode, quiçá, ser poesia. Da mesma maneira,
escrever um comando para a IA não é escrever música.
Gomles: Esta exigência de que o
artista seja um virtuoso técnico, um Bach ou um Prince, acaba sendo
uma forma de exclusão. A IA permite que a música primeira, aquela
que já existe na minha mente, mas que eu não conseguia registrar
por não ser um vocalista ou um multi-instrumentista, finalmente
ganhe forma e possa ser apreciada.
Gau: Ninguém disse ser necessário
ser virtuoso, mencionei Kurt Cobain, cuja virtude era sua
visceralidade e sensibilidade, não sua técnica vocal ou
instrumental. Eu mesmo sou músico e não me considero virtuoso em
nenhum dos instrumentos que toco, gosto de compor e analisar, embora
ame cantar, tocar bateria e baixo. Enfim, ainda que o virtuosismo não
seja uma exigência, sabemos que os vícios são um perigo, e a IA
ocupa justamente esse lugar do imediatismo e do prazer viciante. De
fato, a música pode ser excludente, mas ela é também um espaço de
subversão, se não se toca violino, pode-se cantar, se não se
canta, toca-se guitarra, se não se dominam as cordas, há a
percussão, o batuque num ovinho de samba, o canto coral. Se ainda
nada disso apetece, há funk, rap, música eletrônica,
eletroacústica, aleatória, minimalismo e toda música que ainda
está por ser feita. Em tudo o que fazemos, é de bom tom, para usar
um termo musical, tender ao virtuoso. Esta é uma questão
aristotélica, a busca pela excelência naquilo que nos define.
Ninguém está pedindo um recital de Rachmaninoff numa formatura de
ensino fundamental, mas sim a entrega honesta ao fazer musical.
Gomles: Você fala como se a execução
manual fosse o único critério de validade, mas na arte moderna e
contemporânea, a curadoria e a escolha são atos criativos tão
basilares quanto o toque físico. Um diretor de cinema não precisa
carregar a câmera ou montar o cenário para ser o autor do filme,
ele é o diretor estético. Com a IA, eu atuo da mesma forma, filtro
e direciono as soluções da máquina até que elas correspondam à
minha intenção original.
Gau: De fato, a curadoria é parte
importantíssima e basilar da arte moderna e contemporânea, mas ela
ainda é exercida por quem conhece e estudou o cânone. Numa
exposição de artes visuais, o curador não apenas estudou o artista
a fundo, como também as relações de sua obra com a história da
arte. Mesmo uma exposição sobre games deve ser montada por quem
conhece a fundo essa linguagem. No cinema, seria absurdo exigir que o
diretor fosse um virtuoso em edição, fotografia, som, luz e
atuação, etc. Ora, o trabalho dele é justamente dominar a
linguagem cinematográfica para dirigir com linguagem natural. O
regente de uma orquestra também não precisa ser virtuoso em todos
os naipes para saber dizer, em linguagem natural, o que os músicos
devem fazer. Contudo, a música já está ali, na partitura, uma
linguagem própria, e ela ganha vida na regência também através de
uma linguagem musical, os gestos do maestro. Até se poderia dizer
que os comandos do maestro são próximos aos prompts, mas, diferente
da IA, que executa cálculos algorítmicos e entrega o resultado de
uma bricolagem do espectro das músicas mais comuns, o que o maestro
faz é a negociação estética necessária a qualquer grupo. Um
líder que arbitra a dinâmica, o andamento e os detalhes que não
estão na partitura, ou que nascem do seu próprio desejo
interpretativo. Nada disso uma IA pode fazer.
Gomles: O que chamam de alucinação,
eu vejo como uma forma de colaboração. Esses resultados inesperados
da IA podem me tirar do meu próprio lugar comum e dos vícios
teóricos. É como ter um parceiro de composição que oferece
caminhos que eu, limitado pelo que sei ou não sei fazer, jamais
teria imaginado sozinho.
Gau: Os possíveis resultados
inesperados que a IA produz a partir de suas chamadas alucinações
continuam sendo apenas isso, resultados casuais, não soluções
criativas. É simplesmente algo fora do lugar. Exatamente como
pesquisar sobre uma pessoa e obter o resultado sobre outra, a IA não
está sendo criativa, está errando, cruzando informações onde não
deveria. O que a IA oferece são sugestões disponíveis no senso
comum. E o pior é que essas máquinas tendem a superelogiar e
reforçar o ego de quem está no comando, logo, aquele momento
essencial de autocrítica, em que lidamos com nossa posição no
mundo, inexiste. Ora, se a composição é de quem promptou, por que
reclamar da máquina diante de um resultado ruim, fraco ou pobre?
Tenha certeza, não é porque seu prompt foi ruim, mas porque a
máquina não sabe o que está fazendo. Ela não lida com som, mas
com lógica de programação, se isto, então aquilo.
Gomles: No fundo, a arte é sobre
comunicação e afeto, não sobre o sofrimento do processo. Se o
objetivo é gerar catarse, e se a Natucha curtiu a música e a achou
irada, então a obra cumpriu sua função social e estética. Para
quem ouve, o esforço físico do músico é irrelevante diante da
experiência sensorial final.
Gau: Ainda que a IA possa fazer
Natucha perceber algo de irado, o que foi feito por quem deu o
comando ainda não é compor. O que diverte essa pessoa é um plágio
muito bem calculado. Sei que dirão que artistas roubam e se
silenciam o tempo todo, de Beethoven criando variações sobre temas
de Bach, até famosas citações de Picasso e David Bowie. Eu mesmo
brinco dizendo que certas composições minhas são plágio por serem
fortemente inspiradas em canções que amo. Conhecemos casos
clássicos de plágios literais, como os do Led Zeppelin, ou de John
Lennon com "Come Together" sendo surrupiada de Chuck Berry.
No entanto, em absolutamente todos esses casos, houve um músico
manipulando o som, o erro foi não assumirem, ou não disfarçarem o
suficiente, suas referências, pois obviamente não criamos do nada.
O que insisto desde o começo é, se temos uma dúvida e pedimos que
uma IA a solucione, o resultado não será nosso e será comum. É no
esforço de solucionar o impossível que somos criativos. Para o
ouvinte, o esforço do músico pode ser irrelevante, mas ouvir o pio
de um passarinho ou o ruído de uma cachoeira também é prazeroso e
pode afetar como arte, ainda assim, continuará sendo apenas pio e
ruído.
Gomles: Sinceramente, esse debate se
tornou cansativo. A maioria das pessoas que tenta invalidar a IA
ignora as referências básicas da filosofia da arte e da música.
Estão presos em temas já superados, tratando como novidade dilemas
que a estética já resolveu há décadas. Precisamos, de uma vez por
todas, separar duas discussões que não são a mesma coisa, se
ontologicamente a arte de IA é arte, e se ela é ética. Uma
falsificação de uma obra famosa continua sendo arte? Sim, mas não
é ética. Misturar as duas questões é um erro conceitual que só
serve para paralisar o criador. Na música, especificamente, esse
assunto já está basicamente resolvido na prática, há décadas
usamos samples, sintetizadores com automatização e ferramentas que
geram batidas automáticas. A IA torna o processo mais simples, mas a
lógica de manipulação sonora é uma evolução direta do que já
fazíamos. Até a polêmica sobre as vozes é anacrônica, o Vocaloid
já fazia síntese de cantores reais em 2003, permitindo que
criássemos melodias inteiras com elas. O que muda agora é apenas a
escala e a ética, não a natureza artística do resultado. Ficar
preso a esse purismo é ignorar que a ferramenta não define a arte,
mas sim a intenção por trás dela. No fim, a conversa hoje está
enviesada pelo senso comum, enquanto o que importa é se a "música
primeira" consegue finalmente existir e ser apreciada.
Gau: Não considero este debate
cansativo, nem creio que eu possa ser tido como alguém que nunca leu
filosofia da arte ou da música. Não sou especialista, mas, além de
ser compositor, frequentei disciplinas de graduação em Filosofia,
incluindo Estética e Filosofia da Música. Quais temas você
considera superados? Cuidado para não parecer prepopente. Não me
parece que a questão da ética e a da fatura da música devam ser
dissociadas, não é o que se observa na história da estética,
desde o conceito clássico de belo até o zeitgeist moderno do
estranhamento, os temas passam necessariamente pela ética em relação
ao material estético. Eu abordo, sim, o tema da falsificação, você
está sendo injusto, inclusive, apresento argumentos em que defendo
certos tipos de plágio. Meu ponto central é que escrever um texto
não é o mesmo que pintar, assim como escrever um comando, prompt,
não é compor música. São categorias distintas. Todos os casos que
você mencionou, samples e sintetizadores, foram também abordados no
meu argumento. Tenho a impressão de que não foi dedicada ao meu
argumento a caridade interpretativa que se espera em debates
filosóficos. A IA não apenas simplifica o acesso a samples, ela
automatiza processos a partir de cálculos algorítmicos, e não de
critérios estéticos. Há uma diferença fundamental entre a
ferramenta, que expande a capacidade humana, e o autômato, que
simula a decisão humana. E, realmente, o problema com a voz gerada
por IA é que aquilo não é voz, no Vocaloid, o aspecto estético
sintético é assumido e claro, enquanto na IA trata-se, novamente,
de meras intersecções de cálculos. Posso ser acusado de muita
coisa, mas é injusto dizer que permaneço no senso comum.
Natucha: Gente, vou dar meus
dois centavos aqui, mesmo sem ter consumido filosofia na vida como
vocês . Sinto que algumas pessoas olham para a IA como professores
olham para crianças usando calculadora, no fundo, é só mais uma
ferramenta. Cada um usa como bem entender, e quem usar para fazer
coisa boba ou de mau gosto que seja julgado pelo resultado, ora. O
que eu não entendo é essa aversão completa, sabe? Existe um
preconceito mesmo quando o trabalho é de alta qualidade e o uso da
IA é imperceptível, como aconteceu com a polêmica visual de
Expedition 33 Dizem que o custo da IA ferra com o planeta, mas
hidrelétrica também ferra e não vejo o povo sendo contra. No fim,
a discussão vira muito mais sobre como a pessoa se sente ofendida do
que sobre o que a tecnologia realmente é. O Gomles tocou num ponto
que eu curti, ética é uma coisa, definir se é arte é outra. No
Twitter, o pessoal trata como se fosse a mesma coisa, mas acho que
essa discussão só dura até a próxima geração crescer e
simplesmente não ligar. Com o tempo, finda o acesso livre e a
cobrança pelo uso das IAs deve filtrar o lixo digital, tornando a
tecnologia um recurso restrito a profissionais e assinantes.
Gau: A comparação com a
hidroelétrica é o que chamamos de erro de categoria. Uma usina é
uma infraestrutura de utilidade pública voltada para a sobrevivência
e o funcionamento básico da sociedade, a arte, por outro lado, é
uma atividade da ordem do espírito, do afeto e da singularidade. Nós
não precisamos que a IA substitua o ato humano de compor da mesma
forma que precisamos de energia elétrica. Além disso, as pessoas
são, sim, muito avessas a hidrelétricas quando o custo ambiental ou
social é desproporcional, basta ver as décadas de debate e
resistência sobre Belo Monte. O ponto é que, na arte, o custo não
é apenas ambiental ou ético, mas ontológico. Quando aceitamos a IA
como apenas mais uma ferramenta, ignoramos que ela busca o caminho da
menor resistência e o mais provável estatisticamente. A arte
costuma buscar justamente o oposto, o singular, a falha e a fricção
que nasce da nossa limitação. Uma hidroelétrica produz energia
igual para todos, a arte deveria produzir algo que ninguém mais
poderia ter feito além daquele autor específico. Talvez a música
que você teme perder, Gomles, já esteja salva na sua angústia, seu
registro seria apenas um eco. O perigo não é que a máquina aprenda
a cantar, mas que nós esqueçamos como se assobia no escuro.