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Vou pra frente do quartel

Eu vou, eu vou
Pra frente do quartel
Eu vou

Se tu não der o que eu quero
Me pinto de verde e amarelo
Com a mesma brocha que pinta o meio fio
Sou filho da pátria que pariu

Em 72 horas espero
Senhor, meu coturno é relo
Já perdi esposa, o trabalho e até meu filho
Me mandou pra Portugal de navio

Demando um cano bem longo
Remédio pra verme e piolho
Eu quero ver se me curo dessa gripe
Que peguei esperando o soldado e o jipe

Me dá logo o que quero
Não deixa pra depois
Se não largo aqui mesmo
Um número dois

Movimento Brasil Livre de Arte


Começa assim... o grupelho de moleques paranoicos MBL - Movimento Brasil Livre promovendo histeria, um influente grupo financeiro como o Santander Brasil acatando com supostas pressões de clientes moralistas, com argumentos da pior estirpe da cristandade hipócrita. Os ideologizados defendem suas projeções do que entendem por liberdade e por expressão, dizem que Kim Katupiri e o banco que lucrou bilhões em tempos de crise sem produzir absolutamente nada não têm autoridades de censores, pois não são agentes do Estado, então relativizam seus preconceitos e comportamentos de tais.

Eis que em Floripa uma agente do Estado, delegada de Guarda Municipal, ébria de ignorância, como jurada de um festival de música ruim, decide quais gêneros podem ou não serrem veiculados.
A distopia não é literária, o exercício da escrita é pessoalmente a fim de catarse e reflexão, agora agentes do Estado, polícia civil, afanam, ou como diz o boçal juridiquês, apreendem uma obra de Arte. A exposição já durava meses, mas a imposição foi dias depois da ridícula cena dos neo liberalistas apartidários financiados e eleitos por partidos políticos.

"Antes mesmo da polícia chegar ao local, a direção do museu já havia imposto censura para menores de 18 anos à exposição. Além disso, a sala onde ocorre a mostra recebeu película escura nos vidros das portas."

Foi quem quis, e quem quis ir deveria ser maior de idade, e provavelmente saberia ler que na obra chamada Pedofilia havia os dizeres machismo mata, violenta e humilha. Me parece absolutamente incoerente a interpretação de deputados estaduais, que eu nem sabia serem críticos e analisadores de obra de Arte. Aristóteles teria inveja de conclusão tão assertiva.

"Os deputados classificaram a obra da artista como promoção 'de sacanagens e desrespeito à família e aos bons costumes'."

Anotem aí, amigos, novo tipo legal, sacanagem. Está proibida a sacanagem, falou? Saibam também que há deputado do PEN ocupado com o tema da masturbação, deve ser urgente.

Para outros amigos, insisto, Arte não faz apologia, pode até fazer como no Manifesto Antropofágico, mas ela não serve a isto nem àquilo. Há milênios toda sorte de sujeitos se ocupam apaixonadamente pelo tema da Arte, deem licença a minha hipérbole, mas não serão vocês, nem as crianças prodígios da direita neo liberalista brasileira, a definirem o que pode ou não um Artista, simples assim. Apologia faz deputado federal ao dizer que autores devem ser fuzilados (http://www.uai.com.br/app/noticia/series-e-tv/2017/09/15/noticias-series-e-tv,213410/bolsonaro-diz-que-tem-que-fuzilar-os-autores-da-queermuseu.shtml). Isto não é liberdade de expressão, é apologia ao ódio, à morte, é estupidez e mais nada. 

Arte, quiçá, revela a canalha de uns e o brio de outros, não sei, se pá.

https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/policia-ve-incentivo-a-pedofilia-e-apreende-quadro-exposto-no-marco
Proibir flor
nunca deu frutos

cacofônica reforma trabalhista

Pra mim, esta reforma trabalhosta não muda em nada. Sou músico, nunca consegui emprego, renda, com meu ofício, exceto quando recebia bolsa da universidade para trabalhar no coral, noutro momento no estúdio.

A primeira vez que toquei na noite foi aos 16 anos. É dizer, trabalho desde os 16. Até já tinha carteira de trabalho. Mas o que o estabelecimento exigia era um cheque caução de 600 Reais, como eu mal sabia o que era um cheque caução ou mesmo 600 Reais, não lembro bem como eu, minha banda, e os outros músicos convidados fazíamos pra resolver isto, mas no final ainda lucrávamos uns 300 pra dividir entre 2 ou 3 bandas com uns 4 integrantes cada, eu gostava de comprar mangás com meu cachê desta época. Já neste tempo eu compunha, músicas que mantenho em meu repertório até hoje e tudo que ganhei de royalties foram 13 centavos de dólares com meus 8 seguidores no Spotify.
Há um tempo atrás trabalhei de repositor em mercado, substituí peso da insegurança financeira e dependência familiar, por pesadas 8 horas ao dia de organizar frutas e sim senhor. O que adorei em ser empregado é que parecia que eu não me implicava em nada do trabalho. Se vendesse ou não, se as frutas estavam bonitas, se havia alguma sujeira, bicho, foda-se. Diariamente, estar sem muito ser. Complicado, neurotizante, mas não difícil de cumprir.

Não precisei, não quis. Morar com a família tem suas vantagens. Pedi demissão e fui labutar de músico. Entrei prum coral profissional, bem estabelecido, que faz projetos para Lei Rouanet, paga aparentes bons cachês, fiz até MEI. Paguei taxa, peguei fila, comprei bloco de notas. É para profissionalizar-se, diziam, isso é burocratizar-se, eu respondia.

Este coro ensaia pelo menos duas vezes por semana, independente de ter concerto marcado, e mesmo com concertos marcados nem sempre se sabe quanto se vai receber, ainda assim os coralistas são descontados do cachê seguinte caso atrasem ou faltem. Nele também é exigido que o cantor se mantenha estudando com professor adequado. Eu que não terminei minha graduação, não trabalho em escola, não tenho sala alugada para dar aula, chego a cobrar 60 Reais a hora de aula, imagine quanto não cobra um profissional para treinar outro. O Instituto, como chamavam a instituição que assinava o CNPJ dos projetos, pede 10% do cachê de cada cantor para manutenção da sala de ensaio, sob ameaça de que só receberíamos a próxima paga se estivéssemos quites. Existe alguma outra taxa no mundo de 10%, além dos juros brasileiro criminosos? 10% era quase o que eu precisava gastar por mês mesmo sem precisar pegar ônibus todos os dias, porque claro que não há vale transporte, precisamos até pagar nosso café do intervalo, mas quem nunca?


Músico não recebe insalubridade, claro, o único inconveniente é trabalhar à noite. Não tem como o ônibus alugado parar para 20 cantores em pontos diferentes, não é mesmo? Por que não? O motorista não está trabalhando? Mas não devo argumentar, foi decidido assim. Por quem? O ônibus só para em 3 pontos e ponto final. Músico não recebe o suficiente pra táxi, ainda bem que em capital de ônibus na madrugada, mas prefiro pedir pra alguém chamar um Uber pra mim, já estamos fora de casa desde de manhã, cantamos das 20 e 30 às 21 horas, jantamos pizza, de novo, minha intolerância à lactose é tolerável, mas não quero ter que pensar em como pegar madrugadão nem pra onde, alguém chama um Uber pra mim, por favor.

Dia 7 de Junho é aniversário de minha namorada, eu viajei pra cantar e voltei só no dia 8 de madrugada, vulgo dia 9. O cachê caiu no dia 27. Aliás, caiu pra quem tinha conta no Banco do Brasil, porque quem, como eu, tem conta em outro banco, deveria ir à casa do patrão buscar um cheque. Eu não ouvia falar em cheque desde aqueles 16 anos. Desculpe, chefe, mas não tenho dinheiro nem pro ônibus pra ir ao ensaio, quiçá pra ir buscar cheque na casa do senhor. Minha namorada diz que eu posso tê-lo ofendido por ter respondido, que ele já é idoso e eu deveria prezar pelo trabalho que tenho. Discordo, se é velho e não aguenta negociar, contrate quem faça. Ele me depositou e me cobrou a taxa de 8,80 pela transferência.

Este não foi o único conflito, houve também concertos que dependíamos de portaria e por isso não ganharíamos cortesia nem pra nossa própria mãe, porém no mesmo dia, há algumas horas da apresentação, quando todos já estavam com aquele dinheiro a menos dos ingressos comprados, decidiram que liberariam alguns lugares. Me queixei, disse que me parecia justo que soubéssemos desde o começo das cortesias, todo o planejamento pessoal, familiar, muda por este simples detalhe. Todos me disseram que eu não deveria tê-lo feito, queima filme falar tais coisas. Teve outra em que pelo Facebook mandei à merda os responsáveis pelo atraso de meses de um cachê, pediram pra eu remover a publicação, pra me retratar, explicar que os responsáveis eram do MINC e não da produtora. Fiz, né, com meus resquícios de dissimulação e ironia, mas fiz.

Fui demitido, dispensado, dizem, esta semana por questões de desempenho, dizem, que o próximo repertório é difícil e que precisam de cantores com técnicas mais precisas, dizem, mas eu posso estudar canto e voltar a fazer teste dizem, eu não acredito. Sei do meu desempenho e não sou surdo pra ser incapaz de comparar com o desempenho de meus colegas, há diferenças, entre todos nós, de agilidade, colocação, afinação, expressão, disciplina, mas o que reparei que só eu fazia era falar. Ainda me disseram durante o humilhante ritual de dispensa que gostavam de mim, que minha companhia é agradável e que o problema, assim entendi, não era de meu temperamento, como precisaram falar não acreditei.

Achei que eu teria mais uns 4 concertos até o final do ano, sem aviso prévio, sem FGTS, sem seguro, comigo vão economizar aproximadamente 2500 golpetas, que seria aproximadamente a soma dos cachês até o final do ano, é o valor de um mês de aluguel sala de ensaio. Isto é mão de obra sem direitos trabalhistas, uma curva a menos na viagem, um mês de aluguel economizado. Se precisarem de um coro maior, eles tem meu contato, dizem.

15 mil metros minutos

O patrão sai de casa com 15 minutos de antecedência. Já dentro do carro sente que precisa ir ao banheiro, coisa rápida, sua esposa e sócia não se importa com este imprevisto e enquanto isso escolhe o CD, o trajeto pode ser curto mas não tem porque não atravessá-lo ouvindo música. Xixi feito, volta pro carro ligado, põe o sinto e vai em direção à sala de trabalho. O trânsito pode estar lento, mas é possível desviar dos furões e dos ônibus que por obrigação param de ponto em ponto e nunca saem da pista da esquerda, por parada que esteja. Desta vez o patrão atrasou, 1 minuto, ninguém se importaria.

O funcionário também quis ir ao banheiro, já estava em cima da hora, se perdesse este ônibus não sabe o quanto esperará pelo próximo, mesmo assim foi, ninguém mais poderia fazer por ele. Ansioso, mas aliviado, já perto, mas ainda fora do ponto de ônibus, o inflexível motorista não quis parar para o atrasado mijão. A experiência lhe diz ser impossível, mas a lógica não deixa de confundí-lo, 1 mais meia hora parecem suficientes para concluir de automóvel um trajeto de 15 quilômetros, sem precisar muito a matemática é simples concluir que se precisaria manter uma velocidade de 10 quilômetros por hora para pouco ou nem atrasar. Ainda assim atrasa.

Apesar de não saber o quanto, às vezes nem quando, vai receber a paga pela sua labuta, sabe que será descontado se passar ou se aproximar dos 15 minutos de atraso. A solução primeira que todos dão é que se reserve 2 horas por dia para simplesmente ir, ao trabalho. Ao menos o funcionário, se conseguir ir sentado, pode ler dentro do ensurdecedor ônibus, ou então pode ensurdecer-se com fortes volumes de compressores em músicas sem muita dinâmica por caixinhas de som a centímetros do tímpano. Ele salta em um ponto próximo à sala de trabalho, o suficiente pra ainda ouvir uma música de 3 ou 4 minutos, como já está atrasado não faz questão de andar rápido.

Quando foi demitido chegou 15 minutos antes do horário, de ônibus é assim, ou atrasa ou adianta 15. Foi ficar sabendo da dispensa quando o expediente começou, desta vez com 15 minutos de atraso. Sem aviso prévio, sem contra partida, é a crise, dizem, precisam de uma equipe menor, dizem, mas gostam muito do rapaz, dizem, sua companhia é muito agradável, dizem. O funcionário, mesmo sem incentivo, precisa profissionalizar-se, a cada instante, mais, quando sua mão de obra for indispensável terá poder de barganha. Os patrões não querem que o funcionário dependa deles, mas a empresa depende de uma taxa de 10% em cima dos ganhos do funcionário, como se fossem juros de banco, como se o funcionário estivesse prestando um favor de emprestar-se da culta e nobilíssima empresa.

Taca Quiboa

Meme de membro do grupo da UFSC no Facebook.

VERSÃO REPUBLICANA

O grupo da UFSC do Facebook é um poço fundo de intolerância e incultura, só serve pra nos ensinar o vocabulário da ignorância, em suma conhecer o inimigo e saber o que evitar. Hoje encontrei esta desinformação por lá, mas o fato de um sujeito ter caído em um boato destes é mero sintoma.

Há maneiras corretas de se fazer a manutenção de uma obra de arte, lembremos do episódio com o "Ecce Homo". Não é apenas ferro torto, nem tinta num pedaço de pano. Há obras de Arte que valem centenas de milhões de dólares, tanto quanto o apartamento mais caro no Principado de Mônaco.

De que serve ao Estado economizar em cultura e pagar os juros de bancos? Como nosso povo será culto, emancipado, como o Brasil garantirá sua soberania apenas importando carro e música da Coreia do Sul, a culinária do neoliberalesco Mc Donald's, e pior, na paranoia da caça ao índio e ao comunista?


Deveriam só jogaram água sanitária na estátua, ninguém lê Drummond mesmo.

"Ecce Homo" antes e depois da reforma

VERSÃO IRÔNICA

esse pessoal de exatas da ufsc sabe mesmo como lidar com obra de arte. é só um monte de ferro torto, só tinta num pedaço de pano, deve ser barato manter essa bobagens de vagabundo, né? afinal, obras de arte quase não valem nada, não é como se um quadro pudesse valer tanto quanto um apartamento em monaco. mais investimento em arte pra que se já temos romero britto, e jingle de margarina? boa ideia é economizar em cultura e pagar os juros de banco, fiquei sabendo q o bradesco até planta umas árvores por aí. artista poolui, fuma maconha o dia todo, melhor é o bradesco plantar uns eucaliptos e o alexandre de moraes arrancar as flores de cannabis de toda latinoamérica. aí sim nosso povo será culto, emancipado, o brasil garantirá sua soberania importando carro e música da coreia do sul, importando a culinária refinada do neoliberalesco mc donald's, e caçando índio e comunista. por que só não jogaram água sanitária na estátua, ninguém consegue sequer ler as poesias de drummond mesmo.

Brasa Brasil

Vai reconquistar Pindorama aquele que falar em Cultura, esta terra queima em desejo e palavra, dinheiro é um pedaço de papel. 

Os peles multicolores são curiosos e gulosos, ganância é pros pobres, trabalha porque se precisa, preciso é nos apropriarmos agora do ideal do ócio criativo, e o tal Brasil vai conquistar o mundo.

Do estabelecimento do português na carta de Pero Vaz ao estabelecimento do brasileiro na bossanova, o desapego e a fome da Tropicália e Cinema Novo, a vanguarda da poesia concreta, a baixaria dos anos 1990, ainda não nos damos conta de que nosso objetivo é antropofágico.

Falar em economia é importante, mas não falta nada, falta produzir.

Portugual, Tupi, Itália, Guarany, Japão, Kaiowá, Alemanha, Xokleng, Turquia, Yanomami, e mais quem nem quis vir filhos da África mãe. Brasa Brasil, Babel é aqui.

Lula Imperator Brasilis

A capa da Veja com Lula de que mais gosto é a que o representa num busto tipo imperador romano, desses que influenciou mundos, fez graças e desgraças, tem uma imagem sólida que resiste guerras e tempestades, e mesmo partida, difamada, provoca encantamento e evoca estado de Arte.

Será que Lula também pagou a Veja pra lhe fazer propaganda? 🤔

Referência
PORTAL FÓRUM (Santos). Vale a pena ver de novo: a nova morte de Lula na Veja. 2017. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/2017/04/21/vale-a-pena-ver-de-novo-a-nova-morte-de-lula-na-veja/>. Acesso em: 21 abr. 2017.

Se o MBL falou, tá valendo o contrário



Imagino que as mazelas da colonização pelos brancos na Angola são diferentes das no Brasil. Vale a leitura e reflexão do livro Pele negra, máscaras brancas de Fantz Fanon. 

Ora, depois de quase meio século de escravidão no último país a abolí-la formalmente, ou é ingenuidade ou má fé comparar, sem ressalvas, a problemática dos negros com a dos obesos. Muitos grupos minoritários, não porque são em menor número, sofrem prejuízos em decorrência do preconceito da maioria, que também não a ver com quantidade, suas origens, efeitos e máquinas de guerra são diferentes, os loucos, as mulheres, os engajados nas questões de gênero, os negros, os obesos, os árabes, os pobres, etc. Há e haverá aquele que, pela cor ou classe, é oprimido, mas que encontra privilégios da maioria, da casa grande, via acordos contra o próprio grupo a que pertence. Vemos filmes sobre judeus que ajudaram nazistas, negros que ajudaram escravocratas, etc. Por exemplo o jovem conservador Fernando Holiday, vereador negro de São Paulo pelo DEM, militante do MBL, que tem projetos contra cotas, contra o feriado da consciência negra e provavelmente outras canalhices do tipo.

A questão do turbante especificamente é polêmica, eu não saberia opinar, mas sinto que apropriação cultural, que no Brasil se dilui e se confunde com nossa anti tradição antropofágica, existe sim. Há pressão no social para embranquecer sim, alisa-se o cabelo por muito mais que essa suposta praticidade do cabelo liso. Eu mesmo que nem negro sou me envergonhava por meu cabelo volumoso, pelo simples motivo de ser volumoso, sentia-me feio porque não me reconhecia nos heróis, cantores e outras personas brancas de cabelos lisos que bombardeam crianças dia e noite. Se um branco quiser fazer seja lá o que for que grupos de negros e outras minorias possam criticar como racistas, pouco o impede de fazê-lo, no entanto responsabilize-se e reconheça que se pode pertencer, sim, a esta categoria de quem ignora a questão racial. 

Nas palavras de quem tem propriedade.



Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo. Ana Maria Gonçalves




O Estado hostil contra a Música forte

 


O vídeo chega a assustar pela truculência diante de um conflito tão banal quanto volume de música em um Sábado à tarde, faltam mandado e medidor de decibéis, sobram armas e confiscos.


Não adianta argumentar com o funcionário, militar responde à corporação e outras autoridades. No começo do vídeo o policial faz uma pergunta mui pertinente, és advogada? Se fosse, pela Lei, o funcionário público teria de mudar o tom, chamar de doutor e outras bobagens. Militar não responde às mesmas leis civis.


Não estivessem uniformizados, ninguém teria dúvida de que se trata de assalto, e esta deve ser uma questão central da discussão, o Estado ampara e legitima este tipo de arbitrariedade, vide reintegrações de posse, apreensões de fantasias políticas e toques de recolher durante o Carnaval. É inútil discutir essas questões com um policial no exercício de seu ofício, militares são treinados para suportar ofensas e pressões psicológicas muito piores que nossa civilizada consciência poderia articular.


Precisamos resolver os traumas decorrentes da ditadura, resgatar a Comissão Nacional da Verdade, problematizar a militarização da polícia nos municípios, nos desalienar de motivos e interesses da ação do Estado, ou ao menos reconhecer seus efeitos, por exemplo, em periferias, comunidades de maioria negra. O problema é estrutural.


Publicação original do vídeo

AVALANCHE Mídia

Ideologia mata

Apesar de querer alertar que qualquer cidadão pode cometer uma imprudência fatal, a meu ver o marqueteiro foi infeliz na escolha do arquétipo. São poucos os que se compadecem com animais de outras espécies ao ponto de resgatá-los, ao menos não são maioria se compararmos com aqueles que comem carne sem culpa, que testam ou usam produtos testados em bichos, ou até mesmo os extremos como caçadores e outros agressores por hobby. 

A publicidade teria mais sucesso se realmente problematizassem a maioria. Curioso o fato de a campanha evitar a alcunha cidadão de bem, usada pra chacinar uma família neste reveillon, ou o Luiz Ruas espancado no metro de SP em nome dos valores da família tradicional. Nem precisavam de modelo pra campanha, aliás, podiam nos rememorar o caso do Thor Batista.

Este marqueteiro foi muito infeliz, mas o que vale é a intenção poderão dizer, mas descuidados assim não são coincidência. Em uma campanha, mulher, aquela que resgata bichos, tem vários em casa... A outra campanha qual o modelo escolhido? Homem negro. Ainda outro faz analogia ás práticas como os Terapeutas da Alegria, outro ponto fora da curva dentro do paradigma da medicina. Entende-se a intenção da campanha do Governo Federal, mas ele não é representativo, e comete essas gafes, atos falhos, que ao inconsciente coletivo não é nada falho, é realização de desejo reprimido, nossa sociedade precisa se curar de traumas profundos. 


#ForaTemer

Tira da Saúde e põe na Cultura que cura

Se o MBL apoia, é cilada.
A Oficina de Música de Curitiba foi cancelada, o prefeito fez a infeliz constatação de que usará as 900 mil golpetas em saúde.

O Estado tem recurso para tudo, faltar dinheiro para a Cultura é retirar dinheiro de trabalhadores e famílias. Cultura não é entretenimento, é identidade de um povo, é local de fala, liberdade de expressão, é direito básico. Sem Arte perigamos ficar reféns de narrativas rasas, pobres de conteúdo, com mais cosmética do que estética, como a televisão e outras grandes mídias, sem preocupação ética. Investir em Cultura é questão de saúde pública, mental e social. O que este prefeitinho da República de Curitiba faz é pura demagogia, é criar atrito entre estes dois setores, Saúde e Cultura, e pô-los um contra o outro. Ora, quem seria contra Cultura? Quem seria contra Saúde? Absurdo, o inimigo é outro, é um Estado falho, Governos corruptos, instituições corporativistas e politiqueiras, vendidas. É um problema Cultural. Não digo que Saúde não deva ser priorizada, mas sem investimento na Cultura há toda uma parte essencial da nação que adoece. França, Inglaterra, Japão, México, Israel, Índia, são reconhecidas como são por sua medicina ou sua Arte? Recebem milhões de turistas em seus hospitais ou em seus museus? Há de haver infraestrutura para recebê-los, claro, mas sem Cultura é como se não houvesse por que ter saúde, a cidade se torna trajeto.

Ordem, progresso; polícia, desejos e devires

Como dizem, se organizar direitinho, todo mundo transa. É dizer, há espaço pra libido de todos, pra todos os desejos, mas precisamos organizar.

Na bandeira do Brasil diz ordem e progresso, cafonice positivista, mas conceitos efetivos. De um lado o progresso, o avanço, a mudança, os devires, e do outro a ordem, a manutenção, a neurose. Parte dessa conciliação é feita pelo Estado Democrático de Direito, e a polícia é um dos principais pilares de uma nação firme e justa. 

O que sustenta qualquer um dos pilares deste Estado Democrático de Direito, que é o Brasil, é sem dúvida o cidadão. O projeto de Estado é votado pelo cidadão para que junto ao direito produza leis que protejam o cidadão de, inclusive, outro cidadão, que estimule a economia, a cultura,em nome de mais riquezas, belezas e bem estar social. 

Em casos homéricos de corrupção esperamos poder contar com uma polícia justa, autônoma e bem amparada, contra casos de violência cotidiana, brigas domésticas, na rua, em casos de assalto, ameaças, a boa polícia quando começa a investigar não falha. Por isso tão assustador quando agem de forma truculenta em nome de um Estado que não foi o eleito, por exemplo. A polícia pode ouvir o cidadão, porque ela trabalha para um Estado Democrático. Se esta voz não é a ouvida nas ações do judiciário, do legislativo, do executivo, falta o Democrático no Estado de Direito.

Não se defende menos polícia, questiona-se seu uso. Contra uma manifestação, é necessária uma polícia ostensiva, armada, à cavalos? Contra as drogas, é mais eficiente a polícia ou a Saúde? Uns dizem que sim, outros que não, enfim, opiniões e estratégias diferentes. Como organizar esses desejos dentro de um mesmo Estado? Poderes, constituições, leis, regras sociais, morais... mas nunca podemos deixar de questionar, de criticar, as ideias, ideologias, os desejos, os devires, a própria neurose deve vir do cidadão, do sujeito, não imposto por instituições. Ora, não é isso que se diz contra instituições religiosas? Que cada um possa interpretar o texto à sua maneira e ter meios de que sua voz possa ser ouvida, mesmo que seja dentro de uma garrafa jogada no mar, ou no Twitter. 

Um político não escuta elogios quando faz um bom trabalho, mas crítica, sugestão mesmo fazendo um bom trabalho, no final das contas é pra isso que está ali, para ouvir e legislar em nome de quem fala e vota. Fazemos assim em muitas instâncias, mais reclamar que elogiar, coisa grosseira, podemos mudar, depende de cada um, no entanto há quem se sujeite a prestar serviços ao público, por ofício ou paixão, e deve se responsabilizar pelo local de fala que ocupa. Um boxista reclamar de levar um soco, um psicanalista se queixar que seu paciente fala demais, um pianista reclamar de ouvir piano, um cobrador de ônibus se queixar de dar o troco...

A estética da cidade e a pichação Fora Temer

Um local privilegiado para se anunciar, dizer algo, é do que há de mais caro. Alguns segundos no intervalo comercial da tevê, outdoor em local de trânsito pesado, meia página em revista de grande circulação, a letra do anúncio no jornal. Há quem, por circunstâncias e desejos, sente que tem o que dizer mas não por onde, a imprensa revolucionou esse meio, mídia, por onde se dizer, hoje a internet inaugura uma rede entre nós, e é um novo privilégio ter esses sítios de livre expressão. Ainda, anunciar na cidade tem mais alcance, claro, é onde se vive.

Quem detém o controle sob a estética da cidade? Onde seria capaz de nos comunicar com as inúmeras pessoas que passam por nós? Os terminais de ônibus de Florianópolis, do Consorcio Fenix, sabem lucrar com seus paineis, é mais fácil saber das últimas promoções da Pittol, das óticas do pai da modelo, que do horário do ônibus pro Rio Vermelho.

Há pichações que são assinaturas, como faz Trump em seus prédios por Manhattan, há outras que são imperativos, como o outdoor "Não pense em crise, trabalhe" do golpista, ambos pagaram caríssimo por esses locais de destaque, um com uma pequena herança de alguns bilhões do pai, o outro com milhões de votos usurpados.

Grafites são outra coisa, outro design, outros objetivos, a valorização portanto é de outra ordem, de juízo de gosto. Como o Estado pode fazer para dar vazão a toda, ou às mais possíveis, formas de expressão? Não há outra finalidade pra nossa violenta e armada polícia militar do que atirar contra adolescentes, jovens e adultos equipadas de tinta e indignação? Mesmo contra os blocos pretos que atiram pedras contra os blocos cinza de concreto de empresas, e bancos, que agora terão apenas de usar de seus fundos para explorar ainda mais seus empregados sob ameça de desemprego e fome. Não há médico, cubano ou burguês, que faça o olho da jovem agredida por um militar voltar a enxergar.

Jornais constroem narrativas, não informam fatos, não são mais verdadeiros que uma poesia de Leminski ou uma pixação #ForaTemer. Quando falamos contra algo, nos posicionamos a favor de outro algo, e isto é importante, evitar a hipocrisia, reconhecer o classismo, o racismo, o machismo, o golpe, e se posicionar diante deles, negar as ideologias que tentam nos afogar, é isentar-se de responsabilidade e sucumbir a elas, mas resisti-las, nas ruas, na fotografia, nas urnas, é o bom encontro entre coração e ação.