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Cristal e Mato

quando eu cheguei aqui era só mato, mato, mato
a vida bem mais simples 
e a gente mais feliz
menos aterro, mais mar

mangue é berço e não obra
o sol quer dourar quem banhar
sem sombra de prédio na orla
sem pagar pedágio pra hotel
ilha nos brilha sestrosa
bruxas e poetas
espelho de cristal
quando cheguei aqui
numa bernunça em sambaqui
ímpar poema ao luar

a voz da Neide é uma rosa
nas rodas que choram pelo Miramar
o morro te rima amorosa
trazem pedacinhos de céu
a lua, nas dunas, dengosa
se benze vaidosa
espelho de cristal
quando eu cheguei aqui
cheirinho de malva e alecrim
pela aí a assobiar 

Formação de público em tempos de playlists e algoritmos

Em 1964, todas as pessoas, com raras exceções, só conheciam artistas novos por rádio ou televisão. Desde antes disso, mas até o final da década de 1990, por mais que algumas crianças já conhecessem seus artistas favoritos sozinhas em seu quarto pela MTV ou outro canal de música que seus pais não assistiam, ainda assim os pais conseguiam saber minimamente, e conhecer até uma música ou outra, de uma nova banda de rock ou diva pop que seus filhos adoravam. Zininho e Dazaranha produziram e publicaram naquelas épocas, as telas e as caixas de som eram mais compartilhadas por todos. Não me entendam errado, não estou dizendo que aquilo era melhor, só que era assim. Isso implica em uma formação mais homogênea do público. Das décadas de 1940 até 1960 havia um desafio particular na divulgação de uma música, em Florianópolis existiam apenas duas estações de rádio, Guarujá e Diário da Manhã. Zininho trabalhou nas duas, e foi especialmente na Diário da Manhã, onde foi locutor, cantor e sonoplasta, e também escreveu radionovelas e programas com música ao vivo, como Alma Sertaneja e O Bar da Noite, que se tornou bastante popular. Em O Bar da Noite, Zininho colocava uma banda incrível para tocar, ao vivo, suas canções, entre outras, para serem interpretadas na maravilhosa voz de Neide Maria Rosa. Quando, em 1964, Zininho inscreveu o "Rancho de Amor à Ilha" no concurso da prefeitura, Uma Canção Para Florianópolis, ele já era um artista consideravelmente popular e bem-quisto por muita gente na cidade, das camadas mais populares às mais abastadas. Tendo ganhado o concurso em primeiro lugar, o que fez a obra ser consagrada como hino não foi este edital do município, mas sim uma homenagem em 1968 dada sua imensa popularidade. Há um áudio de Neide Maria Rosa, no Arquivo Zininho custodiado pela Casa da Memória, voltando do Rio de Janeiro para Florianópolis e sendo absurdamente ovacionada por todos, é algo inimaginável para um artista ilhéu hoje em dia. Dazaranha, cujo início da carreira nos remete ao final da década de 1980 e começo de 1990, dependia da mídia de uma forma diferente. Quem cresceu assistindo televisão e ouvindo rádio na década de 1990 mal consegue imaginar um programa liderado por um compositor, com uma banda ao vivo, tocando suas próprias músicas, como acontecia em O Bar Da Noite, quando eu era criança e pré adolescente, se o programa não tivesse mulheres seminuas, reportagens sensacionalistas ou artistas, na verdade, celebridades, que garantissem a audiência, dificilmente seria transmitido em uma grande rede. O Dazaranha foi uma das poucas, quiçá a única banda de Florianópolis de sua época, que conseguiu atravessar a inundação de artistas de São Paulo, Rio de Janeiro e de fora do Brasil, e é excelente e surpreendente que estejam na ativa batalhando nos tempos de hoje, na era dos streamings.

Do público não se exige o bom gosto, é ofício do artista formar o gosto do público. Antes de ouvir Silverchair, eu não sabia que gostava de Silverchair, antes de ouvir a trilha sonora de Katamari, eu não sabia que era possível que música ser fosse de tal jeito tão fantástica, e assim meu próprio gosto pessoal mudou e se expandiu com o que os próprios artistas me ensinaram a ouvir. A questão é que novos artistas não conseguem, hoje, alcançar sequer um público nichado, imagine então aquele grande público dos tempos de "Vagabundo Confesso" ou, mais difícil ainda, aquele das épocas de ouro da rádio. Nós, músicos e artistas, dependemos desse canal para formar o público. O público não nos conhece, não sabe que precisa do nosso trabalho, ainda mais se nossa obra é diferente e, digamos, esquisita. Precisamos que eles conheçam nosso som e que o ouçam de jeitos mais intuitivos, sem precisarem sair clicando em vários links, buscando sei lá onde, no pouco tempo livre que têm. Nossos temas não podem estar apenas perdidos em uma playlist misturada só com músicas de amigos e que escutamos quando queremos mostrar nossas próprias músicas para outras pessoas. Quem se dá ao trabalho de pesquisar novas músicas é um pesquisador, um entusiasta ou um curioso, e este não é o temperamento padrão da população. Não acho polêmico dizer que a maioria das pessoas escuta aquilo que aprendeu a gostar, principalmente da pré-adolescência até seus 20 e poucos anos, e são absolutamente resistentes a novidades, detestam a sensação de estranhamento em uma música, filme, etc. Tom Zé não deixou de fazer música boa durante aquele seu período tratado como ostracismo, mas, de fato, ele voltou a ter a influência merecida quando alcançou seu público depois de afetar como afetou o David Byrne.

Não podemos, jamais, nos queixar do público, exigir que eles compareçam, argumentar apaixonadamente sobre a dependência do artista independente da sua arte para a subsistência ou sobre a importância da arte local, e sei lá mais o quê. Ainda mais hoje em dia, que eu nem sei para que escrevo tanto, já que ninguém escuta ninguém. Precisamos seduzir, como idols, sem sermos clichês, precisamos ser belos e fazermos bem aquilo que fazemos. Não faço ideia de como se torna isso realidade, mas para que o músico pare de tocar só para músico em Florianópolis, vamos precisar nos infiltrar em Maratonas Culturais, televisões, rádios e nos palcos prestigiados frequentados, ainda hoje, pelo Dazaranha e pela Camerata. Este quinhão deve ser melhor distribuído, sim, o dinheiro público precisa ser destinado à cultura, sim. Depender do capital privado é depender da boa vontade de uma burguesia que só quer lucrar, não importa com que porcaria. Por isso a importância de criarmos uma Cena, um coletivo de luta e, quem sabe, até almejar esferas mais políticas, como uma formação institucional de representação dos músicos associados a esta Cena.

Destarte, os principais erros do artista são dois, responsabilizar o público por não se interessar por nossa obra, pois nós somos os responsáveis por seduzi-los, e adaptar nossa arte ao gosto popular para tentar ser palatável. Nós formamos o gosto do público, nossa obrigação é uma e uma só, inventar música.

Um Debate sobre a Ontologia da Música na Era da Inteligência Artificial

Natucha Landom: Você com certeza já está ouvindo, e até gostando, de música feita por IA.


Gau de Beirute: Não, não estou.


Natucha: Cara, produtores de música com IA estão sem limites. No “Descobertas da Semana" do Spotify hoje, vieram três seguidas. Duas eu notei de cara que foram geradas por IA, mas vou te falar que a terceira até ficou legal! Fiz o desfavor de curtir a música, mas porque ficou irada!


Gau: Não existem produtores de música com IA, o nome disso é alguém que digitou um prompt.


Gomles Linhas: Ou é, sim, um produtor de música, alguém que realmente compôs, mas que por vários motivos nunca conseguiu gravar e faz covers das próprias músicas por IA até acertar. Eu já tinha muita coisa pré produzida, inclusive com guitarras guia gravadas e vocal, apesar de eu não ser vocalista nem cantar bem, sempre cantarolei do jeito que deu para passar para os vocalistas com quem trabalhei. Você usa essas coisas pré produzidas, lança no prompt o estilo e ele vai entregar algo na linha, como se você recebesse um cover bem produzido de uma pré produção ou de um esboço tosco. Acho que a única coisa que falta é aceitar MIDI direto, aí seria muito bacana. Se você não quer ter isso como resultado final, é um ótimo ponto de partida.


Gau: Esta pessoa ainda só quis compor, mas não compôs. Existem formas simples de escrever e gravar aquilo que criamos. É ainda impossível fazer uma IA entender aspectos formais da música, harmonia, melodia, contraponto, dinâmica, arranjo, etc., só com prompt. Achar que receber um cover bem produzido de um esboço tosco é o objetivo final da composição é de partir o coração. A estética nasce da fricção, da angústia em preencher o que nos falta. A IA não cria, só calcula interseções. Pode ser uma ferramenta de produtividade, mas é o oposto da criação estética.


Gomles: Você não sabe como funciona. Não é só com prompt, é com áudio de referência também. No SUNO, você manda uma pré-produção tosca, um WAV que você exportou de MIDI com um instrumento fazendo a melodia vocal, escreve a letra lá e vai ter um resultado razoável. Podemos gravar na hora, cantarolar do jeito que conseguimos, batucar como se fosse a bateria, tocar num violão e explicar que seria uma música de determinado estilo, com tais instrumentos, e ele vai te entregar. Sobre o que você disse sobre harmonia e dinâmica, também não é bem assim. Se você manda um áudio de vocal, ela consegue criar harmonias em cima a partir do que você pedir no prompt. Ou seja, você pode ficar horas gravando 200 linhas de vocal para ter harmonia, ou grava uma e cria as outras. Dinâmica? Entende, e muito. Alucina, como qualquer IA, mas costuma entregar bem. Para o vocal, você consegue pedir para sussurrar, empregar técnicas específicas nas partes, narrar. Tem muito recurso.


Gau: Entendo a praticidade, mas o meu ponto é sobre a natureza da escolha. Você entende que não há ninguém sussurrando, nem narrando absolutamente nada, não há voz, são espectros sonoros manipulados algoritmicamente Toda solução que a IA encontra, na harmonia ou na dinâmica, é uma solução que não precisaria mais existir, ela é apenas uma média algorítmica do que já é comum. Isto não é compor. Não basta assobiar uma frase musical, quase um pio de passarinho, escrever em linguagem natural para o robô que você quer, por exemplo, misturar samba com Led Zeppelin e, com isso, achar que se está compondo música. Não está. A harmonia que a IA sugere para uma melodia cantarolada é uma que se poderia, inclusive, evitar, para não se cair em lugar comum. Ela escolhe o caminho de menor resistência, o mais provável estatisticamente. A criatividade aparece no erro, na nossa limitação e naquilo que não sabemos como resolver estética ou formalmente. Quando você pede uma linha de baixo ao estilo Rush e a IA entrega exatamente o esperado, ela mata a possibilidade de afeto, catarse ou sublimação. Compor é o esforço de solucionar um problema que a máquina resolve com cálculos e probabilidades. Quero dizer, ali onde a IA encontra o ordinário, a arte deve buscar o singular.


Gomles: Também é de partir o coração eu ter umas 40 músicas, muitas prontas há mais de 20 anos, e não ter conseguido gravar nada além de oito. Não quero ser um Bach que vai ser redescoberto anos depois da morte. Na verdade, só quero poder apreciar minimamente o que criei. No fundo, tudo isso é fruto de um antropocentrismo. A IA não deixa de realizar suas funções apenas porque se recusa a aceitá-la. É a mesma resistência que havia com sintetizadores e, depois, com VSTs. Não haveria Michael Jackson ou Kate Bush se seguissem só com o analógico.


Gau: Sim, cara, é triste, mas é a sina do compositor. Escrevemos e imaginamos, mas nossa arte só ganha vida na prática, no coletivo, mesmo que esse coletivo seja feito de sessões solitárias em overdub, só um músico e a música, gravação solo com vários instrumentos, um de cada vez. Para apreciar minimamente o que criamos, basta cantarolar, tocar no violão ou no piano, enfim. Colocar a IA para fazer o resto, o que você não teve capacidade de fazer, não é compor, aquilo que a máquina te apresenta é resultado de cálculos e algoritmos, não da tua criatividade. O que você assobiou até poderia se tornar música, mas o que a IA te devolve é apenas ruído organizado por cálculos algorítmicos, fazendo médias com o que há de mais ordinário. Ninguém aqui está criticando o digital, só estou dizendo que ditar para uma máquina o que você gostaria de ouvir não é fazer música. Isso não tem absolutamente nada a ver com sintetizadores ou bricolagem de samples, porque, nesses casos, ainda há manipulação direta do som. Com a IA, é só prompt, é texto, não é música.


Gomles: Isso é exatamente o que o Sindicato dos Músicos dizia sobre os sintetizadores em 1982, que era algo mecânico e sem alma. No entanto, aqui estamos nós, décadas depois, reconhecendo essas faixas de sintetizador como peças icônicas da expressão humana. A ferramenta não define a arte, a intenção por trás dela, sim. Eu vivi essa guerra dos sintetizadores dos anos 80, e é exatamente por isso que sou um defensor ferrenho da IA hoje. Se você acha que a IA vai matar a arte, você está apenas repetindo um roteiro que tem 40 anos. Eu já vi esse filme antes e, alerta de spoiler, os humanos vencem.


Gau: A IA ainda é diferente, ela é apenas texto e comandos em linguagem natural. Essas críticas que certas pessoas poderiam fazer aos sintetizadores, provavelmente elas também fariam em relação aos instrumentos temperados centenas de anos atrás, mas tanto nos sintetizadores, quanto no cravo bem temperado, há um músico manipulando som. A IA não vai matar a arte porque o que ela faz simplesmente não é arte.


Gomles: Como não há nenhum registro gravado de Bach tocando todos os instrumentos e cantando suas músicas, podemos dizer que ele não era compositor, já que ele só escrevia? Uma coisa é compor e outra é interpretar, executar. Se a IA é a intérprete, a música primeira não deixou de existir.


Gau: Achar que escrever uma frase em linguagem natural é a mesma coisa que basicamente inventar contraponto, empréstimos modais e deixar tudo escrito em um código próprio para a música, que, de tão bem construída, é estudada e replicada há quase 400 anos, é, de verdade, de partir o coração. Bach não descrevia uma música triste em Sol menor, ele construía a tristeza nota por nota, ponto contra ponto. É por isso que admiramos tanto músicos virtuosos como ele, Prince, tanto ou mesmo os menos técnicos, mas visceralmente autênticos, como Kurt Cobain. É difícil fazer música. Escrever a descrição de uma imagem não é desenhar nem pintar, pode, quiçá, ser poesia. Da mesma maneira, escrever um comando para a IA não é escrever música.


Gomles: Esta exigência de que o artista seja um virtuoso técnico, um Bach ou um Prince, acaba sendo uma forma de exclusão. A IA permite que a música primeira, aquela que já existe na minha mente, mas que eu não conseguia registrar por não ser um vocalista ou um multi-instrumentista, finalmente ganhe forma e possa ser apreciada.


Gau: Ninguém disse ser necessário ser virtuoso, mencionei Kurt Cobain, cuja virtude era sua visceralidade e sensibilidade, não sua técnica vocal ou instrumental. Eu mesmo sou músico e não me considero virtuoso em nenhum dos instrumentos que toco, gosto de compor e analisar, embora ame cantar, tocar bateria e baixo. Enfim, ainda que o virtuosismo não seja uma exigência, sabemos que os vícios são um perigo, e a IA ocupa justamente esse lugar do imediatismo e do prazer viciante. De fato, a música pode ser excludente, mas ela é também um espaço de subversão, se não se toca violino, pode-se cantar, se não se canta, toca-se guitarra, se não se dominam as cordas, há a percussão, o batuque num ovinho de samba, o canto coral. Se ainda nada disso apetece, há funk, rap, música eletrônica, eletroacústica, aleatória, minimalismo e toda música que ainda está por ser feita. Em tudo o que fazemos, é de bom tom, para usar um termo musical, tender ao virtuoso. Esta é uma questão aristotélica, a busca pela excelência naquilo que nos define. Ninguém está pedindo um recital de Rachmaninoff numa formatura de ensino fundamental, mas sim a entrega honesta ao fazer musical.


Gomles: Você fala como se a execução manual fosse o único critério de validade, mas na arte moderna e contemporânea, a curadoria e a escolha são atos criativos tão basilares quanto o toque físico. Um diretor de cinema não precisa carregar a câmera ou montar o cenário para ser o autor do filme, ele é o diretor estético. Com a IA, eu atuo da mesma forma, filtro e direciono as soluções da máquina até que elas correspondam à minha intenção original.


Gau: De fato, a curadoria é parte importantíssima e basilar da arte moderna e contemporânea, mas ela ainda é exercida por quem conhece e estudou o cânone. Numa exposição de artes visuais, o curador não apenas estudou o artista a fundo, como também as relações de sua obra com a história da arte. Mesmo uma exposição sobre games deve ser montada por quem conhece a fundo essa linguagem. No cinema, seria absurdo exigir que o diretor fosse um virtuoso em edição, fotografia, som, luz e atuação, etc. Ora, o trabalho dele é justamente dominar a linguagem cinematográfica para dirigir com linguagem natural. O regente de uma orquestra também não precisa ser virtuoso em todos os naipes para saber dizer, em linguagem natural, o que os músicos devem fazer. Contudo, a música já está ali, na partitura, uma linguagem própria, e ela ganha vida na regência também através de uma linguagem musical, os gestos do maestro. Até se poderia dizer que os comandos do maestro são próximos aos prompts, mas, diferente da IA, que executa cálculos algorítmicos e entrega o resultado de uma bricolagem do espectro das músicas mais comuns, o que o maestro faz é a negociação estética necessária a qualquer grupo. Um líder que arbitra a dinâmica, o andamento e os detalhes que não estão na partitura, ou que nascem do seu próprio desejo interpretativo. Nada disso uma IA pode fazer.


Gomles: O que chamam de alucinação, eu vejo como uma forma de colaboração. Esses resultados inesperados da IA podem me tirar do meu próprio lugar comum e dos vícios teóricos. É como ter um parceiro de composição que oferece caminhos que eu, limitado pelo que sei ou não sei fazer, jamais teria imaginado sozinho.


Gau: Os possíveis resultados inesperados que a IA produz a partir de suas chamadas alucinações continuam sendo apenas isso, resultados casuais, não soluções criativas. É simplesmente algo fora do lugar. Exatamente como pesquisar sobre uma pessoa e obter o resultado sobre outra, a IA não está sendo criativa, está errando, cruzando informações onde não deveria. O que a IA oferece são sugestões disponíveis no senso comum. E o pior é que essas máquinas tendem a superelogiar e reforçar o ego de quem está no comando, logo, aquele momento essencial de autocrítica, em que lidamos com nossa posição no mundo, inexiste. Ora, se a composição é de quem promptou, por que reclamar da máquina diante de um resultado ruim, fraco ou pobre? Tenha certeza, não é porque seu prompt foi ruim, mas porque a máquina não sabe o que está fazendo. Ela não lida com som, mas com lógica de programação, se isto, então aquilo.


Gomles: No fundo, a arte é sobre comunicação e afeto, não sobre o sofrimento do processo. Se o objetivo é gerar catarse, e se a Natucha curtiu a música e a achou irada, então a obra cumpriu sua função social e estética. Para quem ouve, o esforço físico do músico é irrelevante diante da experiência sensorial final.


Gau: Ainda que a IA possa fazer Natucha perceber algo de irado, o que foi feito por quem deu o comando ainda não é compor. O que diverte essa pessoa é um plágio muito bem calculado. Sei que dirão que artistas roubam e se silenciam o tempo todo, de Beethoven criando variações sobre temas de Bach, até famosas citações de Picasso e David Bowie. Eu mesmo brinco dizendo que certas composições minhas são plágio por serem fortemente inspiradas em canções que amo. Conhecemos casos clássicos de plágios literais, como os do Led Zeppelin, ou de John Lennon com "Come Together" sendo surrupiada de Chuck Berry. No entanto, em absolutamente todos esses casos, houve um músico manipulando o som, o erro foi não assumirem, ou não disfarçarem o suficiente, suas referências, pois obviamente não criamos do nada. O que insisto desde o começo é, se temos uma dúvida e pedimos que uma IA a solucione, o resultado não será nosso e será comum. É no esforço de solucionar o impossível que somos criativos. Para o ouvinte, o esforço do músico pode ser irrelevante, mas ouvir o pio de um passarinho ou o ruído de uma cachoeira também é prazeroso e pode afetar como arte, ainda assim, continuará sendo apenas pio e ruído.


Gomles: Sinceramente, esse debate se tornou cansativo. A maioria das pessoas que tenta invalidar a IA ignora as referências básicas da filosofia da arte e da música. Estão presos em temas já superados, tratando como novidade dilemas que a estética já resolveu há décadas. Precisamos, de uma vez por todas, separar duas discussões que não são a mesma coisa, se ontologicamente a arte de IA é arte, e se ela é ética. Uma falsificação de uma obra famosa continua sendo arte? Sim, mas não é ética. Misturar as duas questões é um erro conceitual que só serve para paralisar o criador. Na música, especificamente, esse assunto já está basicamente resolvido na prática, há décadas usamos samples, sintetizadores com automatização e ferramentas que geram batidas automáticas. A IA torna o processo mais simples, mas a lógica de manipulação sonora é uma evolução direta do que já fazíamos. Até a polêmica sobre as vozes é anacrônica, o Vocaloid já fazia síntese de cantores reais em 2003, permitindo que criássemos melodias inteiras com elas. O que muda agora é apenas a escala e a ética, não a natureza artística do resultado. Ficar preso a esse purismo é ignorar que a ferramenta não define a arte, mas sim a intenção por trás dela. No fim, a conversa hoje está enviesada pelo senso comum, enquanto o que importa é se a "música primeira" consegue finalmente existir e ser apreciada.


Gau: Não considero este debate cansativo, nem creio que eu possa ser tido como alguém que nunca leu filosofia da arte ou da música. Não sou especialista, mas, além de ser compositor, frequentei disciplinas de graduação em Filosofia, incluindo Estética e Filosofia da Música. Quais temas você considera superados? Cuidado para não parecer prepopente. Não me parece que a questão da ética e a da fatura da música devam ser dissociadas, não é o que se observa na história da estética, desde o conceito clássico de belo até o zeitgeist moderno do estranhamento, os temas passam necessariamente pela ética em relação ao material estético. Eu abordo, sim, o tema da falsificação, você está sendo injusto, inclusive, apresento argumentos em que defendo certos tipos de plágio. Meu ponto central é que escrever um texto não é o mesmo que pintar, assim como escrever um comando, prompt, não é compor música. São categorias distintas. Todos os casos que você mencionou, samples e sintetizadores, foram também abordados no meu argumento. Tenho a impressão de que não foi dedicada ao meu argumento a caridade interpretativa que se espera em debates filosóficos. A IA não apenas simplifica o acesso a samples, ela automatiza processos a partir de cálculos algorítmicos, e não de critérios estéticos. Há uma diferença fundamental entre a ferramenta, que expande a capacidade humana, e o autômato, que simula a decisão humana. E, realmente, o problema com a voz gerada por IA é que aquilo não é voz, no Vocaloid, o aspecto estético sintético é assumido e claro, enquanto na IA trata-se, novamente, de meras intersecções de cálculos. Posso ser acusado de muita coisa, mas é injusto dizer que permaneço no senso comum.


Natucha: Gente, vou dar meus dois centavos aqui, mesmo sem ter consumido filosofia na vida como vocês . Sinto que algumas pessoas olham para a IA como professores olham para crianças usando calculadora, no fundo, é só mais uma ferramenta. Cada um usa como bem entender, e quem usar para fazer coisa boba ou de mau gosto que seja julgado pelo resultado, ora. O que eu não entendo é essa aversão completa, sabe? Existe um preconceito mesmo quando o trabalho é de alta qualidade e o uso da IA é imperceptível, como aconteceu com a polêmica visual de Expedition 33 Dizem que o custo da IA ferra com o planeta, mas hidrelétrica também ferra e não vejo o povo sendo contra. No fim, a discussão vira muito mais sobre como a pessoa se sente ofendida do que sobre o que a tecnologia realmente é. O Gomles tocou num ponto que eu curti, ética é uma coisa, definir se é arte é outra. No Twitter, o pessoal trata como se fosse a mesma coisa, mas acho que essa discussão só dura até a próxima geração crescer e simplesmente não ligar. Com o tempo, finda o acesso livre e a cobrança pelo uso das IAs deve filtrar o lixo digital, tornando a tecnologia um recurso restrito a profissionais e assinantes.


Gau: A comparação com a hidroelétrica é o que chamamos de erro de categoria. Uma usina é uma infraestrutura de utilidade pública voltada para a sobrevivência e o funcionamento básico da sociedade, a arte, por outro lado, é uma atividade da ordem do espírito, do afeto e da singularidade. Nós não precisamos que a IA substitua o ato humano de compor da mesma forma que precisamos de energia elétrica. Além disso, as pessoas são, sim, muito avessas a hidrelétricas quando o custo ambiental ou social é desproporcional, basta ver as décadas de debate e resistência sobre Belo Monte. O ponto é que, na arte, o custo não é apenas ambiental ou ético, mas ontológico. Quando aceitamos a IA como apenas mais uma ferramenta, ignoramos que ela busca o caminho da menor resistência e o mais provável estatisticamente. A arte costuma buscar justamente o oposto, o singular, a falha e a fricção que nasce da nossa limitação. Uma hidroelétrica produz energia igual para todos, a arte deveria produzir algo que ninguém mais poderia ter feito além daquele autor específico. Talvez a música que você teme perder, Gomles, já esteja salva na sua angústia, seu registro seria apenas um eco. O perigo não é que a máquina aprenda a cantar, mas que nós esqueçamos como se assobia no escuro.

Mais do que ritmo

mais do que um ritmo

faz o mundo girar

dá mais do que sentido

chão pra a gente dançar

é qualidade das musas

é saudade e prazer


ser humano é sofrer de amor

é sofrer de guerra, superar a dor

trabalhar, transar, servir, ser senhor

ser feio e sedutor

tudo isso só vale a pena se o compositor

antena criador

cai na cadência e inverte o tom


se um dia eu amei outras já nem lembro mais

não há língua, palavra que me toque mais

que este som

está gravado para sempre dentro do meu coração

perfeita harmonia que até pareceria dom

melancolia sublimada em melodia

e segue o som

que está gravado para sempre dentro do teu coração

perfeita mais que a vida que até pareceria dom


Playlists

Minhas playlists

Mixtapes do Spotify organizadas por artista, tema, gênero e ocasião. Cada uma tem seu player com a capa: filtre pelas cores, procure por palavra, abra a lista de faixas ou deixe o acaso escolher.

Algumas listas são atualizadas constantemente, então o que você ouve aqui pode ter mudado desde a última visita.

Infelizmente, Los Hermanos é bom

No começo de maio de 2023 o Ventura do Los Hermanos fez 20 anos, e este é considerado por muita gente não só como o melhor álbum da banda, mas também como um dos melhores discos do pop rock brasileiro, da MPB.

Reescutei todos os álbuns com muita atenção e carinho, pois, infelizmente, adoro Los Hermanos. Poderia ser só nostalgia, mas a música deles realmente conversa e se insere no contexto onde foram criadas e até hoje são relevantes, quiçá tem alguns aspectos que até mais interessantes de se reparar agora com distância do hype.

O primeiro disco, de 1999, é do que hoje menos gosto, mas ao mesmo tempo é o que me provoca mais nostalgia, tenho lembranças de o ouvir em fita cassete, algumas das músicas foram das primeiras que aprendi a tocar no violão e fazer versão diferente da original, lembro bem também da aventura e glória que foi ter descoberto o B side "Bom dia". Esse álbum tem uma coisa muito legal que não se repete mais nos outros que é o Camelo e o Amarante cantando juntos, harmonizando, isso só acontece de novo em "Flor" do Bloco do eu sozinho, e mui brevemente. Tem até aquele baixista gritando "chora" em "Pierrot", lembro que muita gente gostava. Não gosto dos timbres de guitarra deste disco, acho que ninguém gosta, o repertório tem bons momentos, mas uma das melhores qualidades é ser curto, por isso acerta bastante, não satura.

O Bloco do eu sozinho é, ainda, meu álbum favorito, não só do Los Hermanos, mas um dos que mais gosto dentre todos os que já ouvi em minha vida. Óbvio que tem muita nostalgia, aquela potência de ter adolescido o ouvindo e me deixando influenciar demais por esse disco. Considero o momento mais criativo da banda, mais dinâmico, livre, experimental. O Ventura ganha com alguns textos incríveis, e o 4 nos timbres de guitarra, mas o repertório do Bloco, a música, é indiscutivelmente diferente. Este álbum de 2001 é muito variado, tem bastante rock, guitarras saturadas e distorcidas, até um momento com pegada hard core em "Tão sozinho"; tem a balada em 6/8 com guitarras sujas tipo Weezer em "Casa pré fabricada"; "Mais uma canção" tem arranjo para violões, escaleta, e uma estética geral que não se repete na discografia deles; "Deixa estar" é simplesmente um momento brilhante na composição do Marcelo Camelo, até o arranjo dos metais é legal; tem clássicos que se tornaram quase clichês como "Sentimental" e "Veja bem, meu bem"; e o arranjo, a harmonia e modulações de "Adeus você" são coisas lindas e difíceis de se ouvir no pop rock de qualquer lugar.

Não me levem a mal, eu gosto do Ventura, mas desde a primeira música ele já me incomoda um pouco, ainda mais agora que já ouvimos a Mallu Magalhães defender o direito de brancos comporem samba - faltou convidar pro manifesto Noel Rosa, Chico Buarque, Zininho -, mas eu sempre senti que "Samba a dois" tinha, ao mesmo tempo uma pegada irônica, porque, definitivamente, não é convencionalmente um samba. Ao mesmo tempo, Ventura tem momentos emocionantes, principalmente da parte do Amarante. A começar pela guitarra dele, que tá com um timbre maravilhoso e com uma firmeza impressionante, os riffs que ele conseguiu desenvolver nesse álbum são invejáveis, ótimos pra referência e estudo. Agora, "Do sétimo andar", "Deixa o verão" são momentos muito delicados, de uma sensibilidade monstruosa, eu nem gosto de ouvir muito a história do cachorrinho perdido porque me entope a garganta da alma de afetos, e a música do casal preguiçoso só melhora com o tempo, amadurece com a gente, cresce com nosso amor; "Um par" também é bastante sensível, mas não gosto da reflexão do texto. Acho que no final das contas eu não gosto muito do Camelo no Ventura, acho que em "O pouco que sobrou" a gente tem um bom exemplo de como ele compõe e desenvolve o motivo melódico, mas algumas muito populares do disco, "O Vencedor", "Cara estranho" e "De onde vem a calma" me incomodam, me parecem ingênuas, os temas também não me apetecem, o que salva essas gravações são as guitarras do Amarante.

Algo que acontece em todos os álbuns que é importante comentar e pode não ser o que define as composições, mas com certeza define a estética da obra da Los Hermanos, são as baterias precisas, marcantes e autênticas do Barba, e os teclados tímidos mas expressivos do Bruno Medina. Gosto mais do 4 do que do Ventura, todas as qualidades da banda brilham nesse álbum, as composições, guitarras, textos, até os arranjos dos metais, que em todos os álbuns costumam ter frases legais, conversar bem com os temas e serem memoráveis, apesar de também um pouco desinteressantes, com muito uníssono, pouco contraponto e pouca harmonização, neste último álbum de estúdio da banda preenchem com mais cores e tensões intrincadas as poucas músicas em que aparecem. Mas as estrelas que caravterizam esta constelação são bateria e teclado. Desde a firmeza do piano logo na introdução, com a maciez, discrição e pulso da batida, até a esteira frouxa da caixa da bateria, tudo é um charme tão grande que ofusca outras bandas contemporâneas. A dinâmica dos arranjos de cada canção e a dinâmica total do disco, tudo se move de forma tão harmoniosa que faz até a gente suportar aquela chatice do "Horizonte Distante". Eu gostaria de dizer que as músicas do Camelo estão melhores do que as do Amarante no 4, mas seria absolutamente apenas um gosto muito pessoal, mas a questão é que o namorado da Mallu Magalhães estava insipiradíssimo nesta temporada, seus violões caíram super bem também.

Os ao vivo eu não recomendo, acho que é só pra fã da banda, os arranjos dos metais às vezes estão melhor trabalhados, mas os vocalistas não cantam bem e as captações não conseguem timbrar as guitarras. Já fui em uns 5 ou 6 shows da banda, inclusive num Planeta Atlântida, noutro que fez um estabelecimento chamado Fios & Formas despencar, lembro também de outros 2 no teatro do CIC. Mas os discos devem ser escutados, principalmente por quem diz gostar de música popular brasileira. Aquele que escuta muita bossa nova, artistas e arranjadores cabulosos como Tom Jobim, Tom Zé, Marcos Valle, ou ainda Caetano, Gil, Novos Baianos, ou até coisa talvez ainda mais sinistra como Hermeto Paschoal e Arthur Verocai, pode achar Los Hermanos ingênuo. E é, mas Los Hermanos põe a música brasileira pra antropofagizar o rock nos anos 1990, com todos os seus defeitos, inclusive o caráter informal e autodidata, no entanto ainda do jeito como a arte brasileira deve fazer. O Ventura também foi um dos grandes vazamentos da internet brasileira, eu até estranhei quando saiu o álbum oficial, de tanto que ouvi o leak, o scene. Lembremos também que "Anna Julia" foi a última música que o George Harrisson gravou. Precisava? Não. Mas pros músicos cariocas é uma honra e tanto.

Cereja Azul - 2033

"2033" é o EP lançado em junho de 2022 pelo artista Lui. Neste trabalho, Lui se esforça para produzir música e criar algo novo, mesmo diante das adversidades dos anos anteriores. O EP apresenta diversas faixas, incluindo a composição instrumental "sdds d td + nd", que foi especialmente criada para refletir e sublimar a pandemia de COVID-19. Além disso, o setlist conta com um arranjo para violão e 3 vozes da bossa nova "Num Cantinho Qualquer", de autoria do avô do artista, Zininho. O EP também inclui duas parcerias com Arthur Brotto, "Ain't Never Ever Gonna Stop" e "Thiasus", ambas com uma pegada pop, mantendo a estética característica da Cereja Azul.