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Mostrando postagens com o rótulo amor

Uma Deusa (Haruismo Panteísta)

uma deusa que me invade o coração
inventa minha libido então destrói sua criação
domina
uma deusa nunca pode ouvir não
me incrimina, me alucina e me tem na sua mão
me mima

me encantei no seu jeito
me trancei nos cabelos 
escondi o desejo
de mais

ela grita
teima com a vida
se diz que existe et, então que exista
faz de um planeta prancheta
de mim sua luneta
só por diversão
eterniza o verão
inconsciente, não ouve não
eu, leal feito um cão
pacifico o vulcão

me encantei no teu jeito
me lancei nos enredos
perdi o medo
de nós

Ingênuo

Olha o que eu te escrevi outro dia
Se não foi por amor, por que seria?
Mas eu sou assim
Nem me diz
Que eu tenho que deixar de ser tão ingênuo 
E dizer que te amo

Ladainhas e clichês que se escuta falar sobre fazer música

Muito hoje se fala sobre música como negócio, assunto mais que urgente. Diz-se que um grupo de música, uma banda, é como um casamento, depois diz que deve se levar como um negócio, sem misturar o pessoal e o profissional. Ora, ou se casa por tesão e amor ou por arranjo econômico e familiar institucional. Música não é sequer casamento ou empresa. O Palcodigital levanta importantes estereótipos que atrapalham a manutenção de um grupo de música, mas são genéricos mal articulados que atrapalhariam qualquer investimento na vida, é a técnica do mind set, querer manipular a maneira de o músico pensar para encaixar-se no padrão estabelecido.

Não podemos nunca fazer as coisas em nome do medo, é uma questão espinosista, medo é paixão triste, portanto nos tira a potência de agir. Porquanto o medo nos proteja da morte, a música não se trata de sobreviver, mas de produzir desejo, super viver. Um sujeito pode não querer largar seu emprego e dedicar-se a banda de tal maneira não só por medo da fome, mas porque mais deseja a tranquilidade e estabilidade de sua família ou qualquer outro motivo subjetivo. Fazer música não é ter loja de capas para celular, é fazer arte. Envolve a vida do sujeito por inteira, do nascimento ao fim, não se trata apenas de manter-se vivo, mas de aumentar a vida, não só a própria. O medroso não deveria estar em bandas nem em lugar algum, mas a arte pode, por exemplo, lhe sublimar este afeto triste e lhe permitir um bom esquecimento. Expulsar um medroso da banda só para que a banda venda mais? Pois bem, cada um tem sua prioridade, mas me parece arbitrário.

O perfeccionista deve ser valorizado, mas ter o ego amansado. A banda não deve ser um ambiente paranoico para que os sujeitos se encaixem, mais uma vez, no status quo. Mas ambiente para transcendência, logo não é nem casamento nem empresa. Dificilmente um esposo ou esposa gostaria que seu cônjuge transcendesse algum aspecto no relacionamento, isto deveria ser minuciosamente negociado. Na empresa então nem se diz, se o patrão não gostar de uma sugestão ou ação, o que espera o sujeito crítico é o desemprego e a fome.

Fazer da música simples demanda a ser atendida, sem inclusive dar ferramentas de formação para os músicos, pode desqualificar o meio. A maioria dos compositores no Brasil nunca tiveram contato com educação musical formal, não que por si isto seja defeito, é uma qualidade a ser considerada, porém se estes músicos são alfabetizados pelo ouvido, lhes sendo exigido apenas atender pedidos de público alvo, dificilmente se desapegará dos clichês. O perfeccionista deve ser convidado a cada instante a mostrar seus defeitos, na mesma medida reparar-se-á em suas qualidades. O problema de evitar o perfeccionismo é que hoje muitos músicos deixam esse aspecto técnico, que não deixa de existir, para as máquinas, com quantizações, afinadores, e outras ferramentas digitais. Para o público não há queixa, as músicas chegam todas com os mesmos volumes, temperaturas, temperamentos e sabores, é como comprar um chocolate diferente no mercado, pode até ser pior que o favorito mas não será ruim. Não como ir num museu, este choca, irrita, encanta, muda nossa vida um pouquinho. Para o artista, essas ferramentas digitais, quando usadas para maquiar, lhes impede de ouvir também seus acertos. A maquiagem serve de cores e correções, a arte de coração, sincera, ou então irônica, ou qualquer outra coisa, mas não sem intenção ou emoção, como intenções de farmacêutico de bairro.

O atrasado é realmente um problema em todos os ambientes, de trabalho, de amizade, qualquer que seja o compromisso por informal que seja, atraso é deselegante e desrespeitoso, independente da situação. Mas não é imperdoável. Houve tempo em que bandas se reuniam basicamente em escolas ou bairros, hoje as metrópoles possibilitam encontros cada vez mais distantes, e as imprevisibilidades de trânsito, o tempo de deslocamento, obrigam alguns membros que dependem de transporte urbano para deslocar a si e a seus instrumentos, viajarem durante horas para percorrer poucos quilômetros. Não é exagero. Principalmente quando há horário marcado em estúdio pago, o atraso é imperdoável. Mas não há algo que esta banda possa fazer na ausência deste membro? Há alguma maneira de favorecer um pouco quem se desloca mais, quem tem menos recursos para o transporte? Ou a banda deve ser todas de pessoas com o mesmo poder aquisitivo? A única solução para este membro é sua expulsão? Ele é assim tão desimportante? É difícil encontrar horários para todos na banda, sempre é. Em shows não se pode atrasar, e contra isso poderia-se combinar até descontos no cachê, apesar de também arbitrário, mas os integrantes que tem carro podem oferecer caronas mesmo distantes com um diferencial no pagamento, ou a banda poderia reunir-se para oferecer diferencial para Uber ao membro que mora longe. Por isso banda não é empresa, empresa costuma pagar vale transporte. Nesse aspecto se parece com uma família, a empatia costuma ser ponto de partida. Também não se parece com casamento, porque há até um charme em certos atrasos como o da noiva.

A obsessão é também um problema em qualquer aspecto da vida, inclusive higiene pessoal. Não há muito o que falar, é assunto explorado pela psicologia, psiquiatria e psicanálise, astrologia, todos parecem ter opiniões e maneiras de lidar com obsessão. Não se deve nunca levar a popularidade como sintoma de qualidade. Nunca.

O instrumentista ruim pode ser ruim, mas mesmo Nirvana, famosa por não ter bons instrumentistas, é famosa também por ter uma obra consistente e relevante. O músico convidado para apoiar a guitarra instável de Kurt também não era lá grande instrumentista, mas fazia parte da estética. Isto o artigo do Palcodigital não considera, estética. Aliás, fala de tudo, menos de música. O instrumentista chamado ruim deve ser embarcado pelo grupo se assim lhes apetece, seja a fome pela amizade ou pelo rock n' roll. Adaptar-se a partir das dificuldades me parece um dos únicos meios eficientes de se fortalecer. A teoria, os livros, as estratégias são guias, mas a experiência, a dor e o prazer conectam esta consciência ao desejo, aos buraquinhos por onde escorre a criatividade. Um sujeito é um mundo e os escopos devem ser ultrapassados, como adaptar o arranjo do coro para a catedral sem deixar de inovar, evitar o trítono sem evitar a blasfêmia, pintar toda uma capela e oferecer um punhal aos Deuses. Todo artista mata Deus, porque sabe que morrerá, Deus não.

Querer que seu trabalho seja ouvido é, além de tudo o mais, óbvio. Divulgação e distribuição fazem parte da maneira como consumimos música hoje. Houve tempos em que não se tinha música em casa então todos eram obrigados a se deslocarem para alguns lugares e ouvir as mesmas músicas. Hoje a música vai até os bolsos das pessoas, pela rádio, pela tevê, pela rede. Pela rádio o artista precisa de jabá, pela tevê precisa fama e ideologia, pela rede precisa de canais e cliques. Com certeza pela internet é um meio mais fácil de se fazer ouvir, seja por muitos ou não. Divulgação de bandas pela web costuma se confundir com spam. Conhecidos com que há muito não conversamos pedindo pra ouvir suas músicas sem nunca terem se disposto a ouvir as nossas, grupos de amigos músicos em redes sociais com propaganda de shows e clipes, e sei lá mais o que sem nem curtir a página do amigo, ou seguir Soundcloud, Spotify. Pede-se muito dá-se pouco. Cada um tem a sua maneira de divulgar seu trabalho, o profissional nisso é o publicitário, se a banda quer trabalhos destes profissionalizados deveria contratar alguém que assim o faça. O marqueteiro não se implica na obra. Não podemos ignorar as questões de orgulho, vergonha, e outras subjetivas do autor. Seu trabalho é compor, vender é outra virtude, necessária, mas a banda deve se ajudar, sem se queimar e atolar a caixa de correspondência dos parceiros com discos que nunca ouvirão. Falta cena, artistas unidos falando um do outro, um crooner, uma Gal Costa que cante Caetanos, Gils, Cayimmis e a família toda, Miltons e clubes em esquinas que aceite mais que rock. Uma cena romântica, de ação, uma cena de militância e brio. Propaganda é alma de negócio capitalista, é o que diferencia Coca e Pepsi, não Van Ghogh e Duschamp. A alma da arte é outra, é preciso vender pra sobreviver, labuta é labuta, mas não devemos fazer música porque precisamos, como urinar, mas porque desejamos, como amar.

Tema de Jhuventude

Bem na verdade quero tua companhia
Todo dia navegar teu mar de tédio e paixão
Sem esperar dos negros olhos euforia
Dia a dia encantar estranho e tenro dispor

Mas vou dizer pra me deixares sozinha
Sem dizer que sim ou não, por que, por quem
Porém esta saudade vinha sem tuas jovens mãos de mel

Perdoa

Por te beijar
Por te adorar
Com mais palavras
Por te mostrar o quanto te quis
Por te manter cerca de mim
Pra te amar até o fim

Por depender
Tanto querer
Estas mãos fadas
Por te acordar a paz de mim
Por não saber viver sem ti
Por isso, amor, imploro
Me desculpe

noss as líng uas

minha língua é um chicote
macia e úmida verbal
logo tão mais violenta
do que se cortasse de prima
as marcas não aparecem
a saliva faz parecer curar
mesmo com carinho
açoite é sempre açoite
meu amor é violento
se te tratei bem
não te amei
mas se o que disse
te espedaçou em mil
o coração nesse vazio
ali está meu amor
felicidade será catares
caco por caco colares
perdoe por amar demais
me explodo e é insuportável
te querer tanto
pra sempre junto à minha solidão
se te abandonei te amei
se me esforço pra te manter aqui
é pra cedo ou mais tarde
me abandonares

tua língua são braços
macios e perfumados
cravo vivo negro carmesim
riso insuportável
ingênuo lindo e verdadeiro
mas verdades não existem
como podes existir tão jovem
velho desde que nasci
não te vou divertir
porque já o és
o que queres de mim
não dou
sou sempre falta
frente tuas palavras
carinhosas quentes apetitosas
graça sem sentido
quero ser piada tua
conseguir rir
és riso
eu dilataria tua vida
já que me despossei da minha
no feliz amor em ti
como podes tanto
não suporto e enjeito
golpes minha única suavidade
te deixar só

como é difícil
ter presente
o amor

M acho

Macho é o cachorro,
O elefante, o mosquito.
Sou qualquer coisa
Além do macho. Bicho
Homem tem palavra
Adequada aos punhos
Da razão. O coice
Dá majestoso o gado.

Este corte nos lábios
Rubricam meu contrato
Com a força da família,
Dos amigos e instituições.

No processo fiquei rico,
Não corro mais perigo
De faltar com compaixão.

O que viu meu amor
Cegueira branca é mais branda.
Literaturação.

Já estou mais calmo,
Paranoia fala alto
Mas fala em catalão,
Não entendo seu sentido,
Ignoro sua intenção.

De repente eu rimo
Por pura distração.
Vou deixar de ser girino
Virar sapo ou sabão
Ou papo ou não.

Te trairei

Te trairei no inverno
quando o frio da maldade
me armar com sua lança
de gelo, e teu coração
vier em direção oposta
ao calor que em ti sinto.

Ilhada

Te gosto assim
Coberta em graxa
Imprópria, profanada
Usada, vivida
Te quero assim
Cheirando a mar
Que não cheira mar
Odor de dar calafrios
Um fedor de amor eterno
De infância, irrecuperável
Te quero cabeluda
Crespa, volumosa
Me afogar nas ondas,
Debaixo dos caracóis
De teus pentelhos
Beijar onde a vida
Ainda não se fez
Te quero nova, intocada
Virgem, muda
De véu e shorts
De burca, na Lua
Chula, refletida
Na lagoa, duplicada
Velha, maltratada
E amada, ilhada.

Beija mor

Há quantos anos
Não via um beija flor
Calmo lilás estamos
Nem parece amor

Fica

Teu lado da cama
Acordei sozinho
Feliz pois que a chuva
Negra regou minhas
Flores ideias, mas triste
Podias ter ficado

Mantemos uma distância respeitosa
Entre Israel e Japão
Entre 87 e 96
Entre morrer aos 27
E amar virgem primavera
Entre cozinha e banheiro
Entre o som e o fetiche
Entre trabalho, ócio e emprego
O períneo
Entre a dor e o carinho

Podias ter ficado
Eu podia estar ocupado
Mas nosso caso é antigo
Tem meses, anos a fundo

Fiquei quieto
Gosto de ouvir
Os detalhes
E usar cada palavra
Metáfora, amor
Jogar a comida na tua cara
Te lamber sem dizer

Compor-te

Música
Saudade
Solidão
Chuva
Um tom qualquer
Modulações e síncopas
Contratempos, contrapontos
Coros dissonantes
Retorno diferente
Te conquisto
Convenço, seduzo
Me afasto
Retorno pro fim
Chuva
Solidão
Saudade
Música

Ausência presente

Se for pra bater forte
Dê na cara.
Quero sentir a ardência,
Paixão, eterna doença,
Em meus lábios.
A marca, a cicatriz,
O veneno, ácido fingir
Tantos amores.

Amor para acordar.
Amor para almoçar.
Um apenas pras quintas.

Que não seja claro,
Nem escuro, nem lui,
Nem luisa, seja negro
Buraco por onde os corpos
Deslizam, chupando até
O fim do rosa existir.

Somos um limite,
Ou morte, ou sexo.
Nada mais, hiatos são
hiatos, palavras são
Palavras. Te amei,
E te amo, nunca mais
Te amarei enquanto
Não estiveres presente.
cabes na minha mão,
onde deitas felina
e, lua, brilhas amante.
nova, mínguas cheia,
és a cor mais azul
que o céu, mais sin
fonia na forma da cin
tura que sonata ao luar.

um soneto sonolento ,
sombra sonâmbula,
um fado safado,
uma, duas fadas nuas,
luas, ruas tuas, crueldades cruas,
romântica semântica,
desamparada, desapageda,
sorrisos, sóis e rios de risos,
melancólica rainha abelha
gorda, geleia natural, imortal,
tal qual mel e vênus.

brilhas pequenina,
feminina, mais fê
que menina, mais
sua que saudade,
sacra secreção,
e sua e soa, ecoa,
escorre pelos anos,
sai pela boca.

21 de Junho

O primeiro dia de inverno
Hoje amanheceu
Uma bela primavera.
Flor enluarada
Escorre um leite
Que ferrão mel suga
Poliniza coisa alguma.
Gozo desde as estrelas
Acerta o corpo, a face
Toda mata que há tempos
Não era tão virgem.

A tarde, inútil de um sol
Negro e macio, escorrega
Feito fosse fácil amar.
Liber responsabilidade,
Saliva na Lua na testa da fada,
Veneno que se espalha
Bebemos, espelha
Numa taça de mentira
Bebes, te lambuzas.
Te escondes e te tornas branca,
Estaremos juntos, dividimos
Um pedaço da morte.

A noite alva melancolia,
Solidão sólida leve companhia
Nunca mais a vi nua
Apesar de tê-la
Toda nua a vista.

Luisa

Onde estais, Luisa? Ultimamente sinto que não és mais a mesma. Será que eu mudei? Com certeza mudei, mas tu mudastes também. Como se eu me esforçasse para enxergar alguma coisa, e esse esforço da visão fizesse meus olhos chorarem (pois é logo atrás dos olhos, na região orbitofrontal, que localiza-se o "eu" no cérebro, forçar a saída do "eu", ou a entrada de algo logo na cara do "eu" pode fazer chorar). Acho que tens outro. Sei que eu mesmo tenho outras várias, mas nunca deixei de te amar. Elas outras nunca me amaram. Mas nem tu me amaste, sim?
Para além de minha alegria, sei que estarás sempre ali, ao alcance de minhas mãos, da minha boca. Sinto-me insuficiente para ti. Não falo bonito, não sou carinhoso, minto emoções, forço situações... Acontece, minha amada Luisa, que mal sei amar! Quero dizer, me esqueci como se faz. E é exatamente assim que se faz: esquecendo como se faz. Amar é esquecer como se ama. E eu te amo, Luisa. Te amo como a uma porta no deserto. Porta sem paredes. Porta que não serve nem de entrada, nem de saída, serve simplesmente para passar por dentro dela mesma. Mesmo inútil faço questão de pôr minhas mãos - imundas, medrosas, desejosas de feminilidade e calejadas de tanto te tocar - em tua maçaneta, girar e escutar o ruído, o gemido, sentir contrair o trinco que te tranca em teu outrem, tua batente; sentir a tensão, a agonia e ouvir o estalo! o orgasmo! Ter à mão direita tua maçaneta, e a esquerda a te epurrar, assim te controlar como bem entender, pela simples alegria de te atrevessar. Sei que não vou chegar a lugar nenhum, mas sei que essa é tua função - ser atravessada -, ó, porta amada. Luisa, nunca fostes para mim uma porta que me leva ao mundo de fora, ou que me põe dentro em um lugar especial, mas és justamente esta porta inútil, que não me leva a lugar nenhum (ao mesmo lugar, só que agora do outro lado de ti), que toma meu tempo, meu pensamento, minha escrita, minha música, meu sexo, meu nexo, meu ego, pela alegria de te ver ser exatamente aquilo que tu é: uma porta. E ser contigo quem te atravessa. Nunca serei uma porta e tu nunca serás um quarto. Nem um castelo. Nem uma rua. Nem um deserto. Mas serás, para sempre, um mundo inteiro que é, simplesmente, um portal para o outro lado de si mesmo. 
Me despeço de ti, choroso tal qual a flauta que não tocas, toda vez que terminamos de fazer amor. Nosso amor tem fim toda vez que tem fim nossa ação de amar. Por que isso? Toda vez o adeus é um último adeus. Mas os ois, nunca são primeiros ois. Nos cumprimentamos acanhados, tu faz que não me conhece, e eu faço que nunca te toquei. Fazes como se nunca tivesses escutado uma única palavra minha. Maldita, Luisa! Gorda. Bunda grande. Peitos grandes. E nem bunda ou peito tem. Nem tamanho. Mas és grande, gorda e difícil de lidar, de tão linda. Gostaria de ouvir tua voz. Sei que gosto de ouvir tua voz. Deve ser linda, todos os que já te tiveram - inclusive eu - dissemos que tua voz é linda. 
Tu deverias ter ficado. Deverias ter vindo e fincado. Eu sou um tolo, ainda acredito que te dominarei, e sei bem que só assim, sem ti, te dominarei. Não consigo te entender. Sei de onde vens, sei pra onde vais, mas o meio do caminho... como chegastes ao meio do caminho? Teu caminho tão preciso, tortuoso, amarelo, brilhante e sombrio. Já me deixaste acordado tantas vezes quando precisei dormir, já me fizeste sonhar quando deveria estar são, já me matasse quando tentei me suicidar. Só me atrapalhas a tal vida real, Luisa. Por isso te amo. De tanto ódio que sinto por não conseguir te ter, eu te amo. De tanto medo que percebam que... percebam que... pecebam o quê? Que não sou bom o suficiente para ti, Luisa. Todos sabem dos teus amores. Pouco me importa, porque muito me importa. Se eu me ocupasse em me importar com quem já te teve, perderia de poder me importar contigo. Não quero saber de mais ninguém, só de ti. De ti, e das outras. Mas tu és meu amor, não te esqueças isso. Como vais esquecer se és incapaz de lembrar? Maldita memória que não me deixa esquecer. Se te esquecesse eu poderia te amar. Eu poderia ter teu amor! Sei bem que somente eu te amei. Talvez teu pai tenha te amado. Quero ser teu pai e te amar. Serei teu novo pai, já que o velho morreu. Não tens mãe, ou será que tu és tua própria mãe? Sim, tu nasceste para seres mãe. Como eu queria ter filhos contigo... muitos filhos, lindos filhos, felizes filhos que encheriam minha alegria de nostalgia, tristeza e desejo. Mas mesmo nossos filhos nunca serão lindos como tu, Luisa. Tu és mulher. Rouca, complicada, instável, comovente, emocionada. Tu não és albina, nem negra. Não és alta, nem baixa. Não tens braços, nem gostos. Tens batente e guarnição, onde o trinco encontra o que está fora de ti, sempre ao redor de ti. Minha missão é encontrar essa batente, que não é só tua. Aliás, desde que nascestes não tens nada além de ti mesma, Luisa. Ah! Como eu te invejo, Luisa! A ti e teu pai. Mas teu pai foi um cafajeste, dos mais lindos. Quero ser teu pai. Pra te criar, e te livrar, e poder ver tuas irmãs serem mais feias que tu. E olha que são lindas. Como tu é cruel, fazer um homem sofrer assim, fazer mulheres sofrerem assim. Assim como? Exatamente assim, sem saber como se sofre, todos sofrem por causa de ti. Talvez, quando eu finalmente souber o que me tira potência de viver, que me deixa impotente com todas as outras, aí sim, finalmente me livrarei de ti, te jogarei fora, te darei de comer aos meus gatos, e vou gargalhar te vendo morrer em meus braços; aí sim, nos amaremos, então, até o fim da eternidade, porque mesmo que meu corpo morra, eu continuarei vivo. 
És como eu, Luisa. Sim. És exatamente como eu. Ninguém tem alma, nós somos alma. O que temos são corpos. Esforço-me para fazer meu corpo como o teu, para finalmente consumarmos nosso amor. Eu espero, e espero pra poder ter controle de teu corpo. Tens completo controle do meu, mas isso é porque eu tenho um corpo, e tu não. Que grosseria a minha! É claro que tens um corpo. E ele é lindo. Teu corpo é linda.
Vou procurar outras amantes, antes que eu enlouqueça, antes que eu fique só, antes que eu morra, antes que tu me mates, antes que me atropelem mesmo sem eu sair de casa. Pra que diabos eu sairia de casa, se aqui, bem aqui, sei que posso te encontrar? É só em função de ti que eu vivo, e por isso me faço de morto. Quero que te preocupes comigo, Luisa, porque eu me preocupo contigo. E te amo muito.
Quero ser ruído de mar
Tão suave que quase imperceptível
Tão forte e profundo
Que eternamente presente

Quero ser silêncio que procuras
Em meio ao trânsito
À tormenta, o silêncio que falta
Quando o ciúme agita

Quero ser o impossível
Mergulho profundo e refrescante
O gozo da queda
E a aventura de dormir

Quero ser o que regula tua temperatura
E te apavorar
Com a iminência de um tsunami
De te amar

Teu transtorno no verão
Teu próprio verão
Aquele que abandonas
Quando quente o mar e fria a lua

Quero ser ruído de mar
Que aos domingos chora contínuo
Não sabes se pra ti
Mas cuja lágrima azul clara rosa tem teu nome

O ruído mais suave
Mais rouco, pouco
O que prova tua ineficiência
Não sabes amar

Mais distante que o céu
Quero ser o que está dentro de ti
Na lembrança, num vai e vem
Quando te faltar pai ou estar nua

Quero ser o moreno, o frouxo
Que de tão azul, não soube ser mar
O ruído em frente ao teu quarto cantando
O dia podia ser mulher, ser melhor

ciúmes

como encarno, não apenas visto
a pele,o lobo, nada mais justificável
que eu seja também agredido.
essa luta não é minha, antes
é contra o que me tornei.

posso livrar-me disto,
pergunto a chuva, pois
que a mulher
já não me quer.
Que nunca me falte
A clara letra c
Na alma.
calma
  alma
ca ma
  a ma
clama
  lama
cla   a