Megaman Legends - O charme e a modernidade de uma joia do PS1

Megaman Legends é um jogo muito melhor do que eu lembrava. Tinha acabado de platinar Final Fantasy XV, quase 80 horas de campanha, e terminado The Last of Us mais a DLC Left Behind, dois jogassos intensos e emocionantes. Na hora de escolher o game seguinte, apelei à nostalgia e até comecei Megaman 7, um dos meus primeiros jogos de SNES, mas experimentando o Legends, e avançando pouco mais de uma hora, fui ficando de cara com a qualidade deste primeiro RPG da franquia do robô azul criado no ano que eu nasci.

Foi lançado para Playstation 1, mas eu estou jogando pelo Wii com controle de Gamecube, mapeei o controle para controlar a câmera com o analógico C, mirar com o L e atirar com o R, ficou bem parecido com os controles modernos. O gráfico é bonito, colorido, todo em 3D, é tudo bem quadrado e as texturas são simples, a própria movimentação do personagem, hoje, parece estranha nas diagonais, os labirintos são feitos nos eixos mais retos e as batalhas aproveitam os movimentos circulares justamente como parte do desafio. Senti falta de um sistema, mesmo que simples, de experiência, mas o jogo tem equipamentos, evolução e gestão de espaços limitados pra esses equipamentos, diversas armas secundárias, algumas mais difíceis de se encontrar. É divertido como acumulamos itens para Roll desenvolver armamento e peças novas pro Megaman, desde equipamentos que melhoram status, melhorias pro buster padrão, e mesmo melhorias na movimentação do protagonista, tipo aumentar a velocidade geral do boneco.

Se estou chamando de Megaman Legends já entrego que jogo a versão ocidental, porque a japonesa se chama Rockman Dash. A dublagem aqui é fraca, típica americana, sem emoção, completamente mecânica, mas as vozes estão bem caracterizadas, dão identidade pros personagens e, sinceramente, impressiona até mesmo que um jogo de 1997 tenha tanta dublagem. Não é um jogo tão longo, fechei fazendo quase tudo que podia com cerca de 15 horas de gameplay, é bem aproveitado e tem uns charmes na programação dignos dos melhores jogos mais modernos. Por exemplo, às vezes a Roll nos chama, com voz dublada, durante as dungeons, para dar dicas de como prosseguir nos labirintos ou mesmo só para conversar e aprofundar na construção daquele mundo e dos personagens, e a gameplay não é interrompida, podemos continuar andando e olhando ao redor enquanto ela conversa com a gente. Ela até avisa quando terminamos uns inimigos mais difíceis em no maior estilo Joel ou Ellie anunciando, como que pro jogador, que todos os inimigos foram derrotados e agora podemos explorar os redores em paz. Tem também um discretíssimo e divertido sistema de moral, em que a armadura do Megaman fica escura caso ele se comporte mal, por exemplo com aquela manha de ganhar dinheiro chutando a latinha jogada que tá no chão pra dentro do balcão da padaria. Este sistema de moral parece até alterar como alguns NPCs interagem com o herói, joguei me comportando bem, então quando interajo com algumas portas de casa no cenário, elas me retornam com as pessoas no interior rasgando elogios ao Megaman, acho que isso deve se alterar caso se esteja com o dark.

A trilha sonora não é o momento mais inspirado do jogo, as composições até são bem escritas e arranjadas, mas tem momentos em que se percebe nitidamente que aquelas flautinhas são um tecladista fritando pro MIDI numa melodia que, embora bonita, não é pra flauta. Tem bons momentos, na loja de CD me impressionei com a qualidade do jazz, e é uma pena que tenham tirado a canção pop Another Sun, interpretada por Reika Morishita, da versão americana. O silêncio dos labirintos, os pios dos passarinhos nas áreas exteriores, as dinâmicas, dão muito bem o clima de cada ambiente, tem faixas legais em cenas, e dá pra afirmar que é boa a trilha, mas algumas escolhas de instrumentos foram bem erradas pra músicas recorrentes, os temas de Apple Market e de Uptown, apesar de muito características, podem atordoar.

Estou honestamente impressionado com Megaman Legends, achei que seria só divertido, legalzinho de jogar, mas com a adaptação de controle que eu fiz, e me permitindo imergir naquele mundo, até me peguei refletindo junto da Roll quando ela se perguntou se o que eles estão fazendo, os diggers catando os refractors, não seria roubo. Fiz todas as side quests que encontrei pelos FAQs e gastei mais tempo do que eu deveria nos joguinhos na estação de TV, mas infelizmente não consegui o "Giant Horn", pra completar o museu. Já estou até me imaginando jogando o Megaman Legends 2, e recomendo o primeiro pra quem curte jogos retrô, uma exploração de leve de RPG, que não se importa com um controle duro, impreciso e com um sistema de tiros simples. A história é melhor do que eu considerava necessário e até provoca reflexões a mais em tempos de modelos de linguagem e inteligência artificial. É uma joia do PS1 e realmente uma pena que esta versão de uma das franquias pelas quais tenho mais carinho não tenha recebido, nem tenha previsão de receber, um terceiro capítulo.