Introdução a Escalas e Modos Musicais

UFSC · Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Filosofia · Estética I — Claudia Drucker
Lui Barbosa Almeida

Introdução a Escalas e Modos

“A teoria da música é um meio, não um fim, são sugestões, conselhos e recomendações, não regras rigorosas e intransigentes.” (MED, 2007. p 10)

Este trabalho é um esquema com breves definições para introduzir o músico amador e o não músico às noções fundamentais da teoria da música. Primeiro, as propriedades gerais de toda música; depois, definições essenciais sobre intervalos e escalas; por fim, os desenvolvimentos históricos das escalas, seus nomes e usos, de onde decorre a música contemporânea, especialmente a popular. Clique, toque e ouça: em tudo que tiver um botão, há som. Ajuste as vozes em ⚙ SOM.

1 · Principais propriedades da música

“A invenção da pauta tornou possível registar com precisão a altura relativa das notas de uma melodia e libertou a música da sua dependência, até então absoluta, relativamente à transmissão oral. Foi um acontecimento tão crucial para a história da música ocidental como a invenção da escrita o foi para a história da linguagem.” (GROUT, 2007. p. 82)
Partitura de exemplo com tenor e baixo, andamento Moderato, dinâmicas p, f e subito p
Duração — tempo do som, ritmo. Dada pelo andamento e pelas figuras: semibreve, mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa, semifusa…
Intensidade — força, pressão; forte ou fraco (p e f).
Altura — grave ou agudo, dada pela clave e pela posição da figura no pentagrama, o que determina a nota.
Timbre — característica ou qualidade particular de um instrumento ou voz. Aqui, o timbre é a forma de onda:
Silêncio — as pausas também são música:

Melodia, harmonia, arpejo e contraponto

Escalas e melodias são formadas por alturas sucessivas (voz, violoncelo, flauta, theremin). Harmonia e acordes, por alturas simultâneas (piano, violão, coral, orquestra). Contraponto é a sobreposição de duas ou mais melodias. Arpejo é a execução sucessiva, não simultânea, das notas de um acorde.

Percussão: bateria, agogô, pandeiro, triângulo. Outros recursos: samples e sons concretos — a caixa registradora de Money (Pink Floyd), helicópteros no Helikopter-Streichquartett (Stockhausen), o tiro de Que tiro foi esse (Jojo Maronttinni) e a Partita em Lá menor de J. S. Bach em Bum Bum Tan Tan (MC Fioti e DJ Pereira).

2 · Definições de Intervalo e Escala

As notas são 7 sons de altura definida: pela tradição latina, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si; pela anglo-saxônica, C, D, E, F, G, A, B. Intervalo é a diferença de altura entre duas notas, ascendente ou descendente. Os intervalos são qualificados pela quantidade de notas que os separam (posição numa escala) e pela qualidade, dada pelos semitons que os compõem.

Intervalos a partir de Dó: segunda maior, terça maior, quarta justa, quinta justa, sexta maior, sétima maior, oitava justa
Laboratório de intervalos. Clique numa tecla para escolher a nota de partida (borda vermelha) e depois num intervalo.

A mesma nota tocada em sequência ou simultaneamente chama-se unísono. Meio tom, ou semitom, é o menor intervalo entre duas notas no sistema temperado da música ocidental, que fixa a oitava em 12 semitons iguais (piano, violão, flauta). O sistema não temperado — música tradicional árabe, hebraica, japonesa, possivelmente a grega antiga — não define todos os intervalos da mesma maneira: há intervalos menores que meio tom, os comas (violino, voz, theremin).

Uma Escala delimita intervalos por tons e semitons entre um número finito de notas dentro de uma oitava. Oitavas são alturas separadas pela metade ou o dobro da frequência; são consonâncias perfeitas e entendemos a nota uma oitava acima ou abaixo como a mesma. Intervalos de até uma oitava são simples; os compostos interessam hoje à Harmonia. A qualidade — maior, menor, justa, diminuta ou aumentada — depende dos tons e semitons que compõem o intervalo.

3 · Harmonias Gregas, Modos Eclesiásticos e Escala Maior Natural

“A música grega assemelhava-se à da igreja primitiva em muitos aspectos fundamentais. Era, em primeiro lugar, monofónica, ou seja, uma melodia sem harmonia ou contraponto. (…) A música grega, além disso, era quase inteiramente improvisada. (…) a sua melodia e o seu ritmo ligavam-se intimamente à melodia e ao ritmo da poesia (…).” (GROUT, 2007. p 19)
“Foi a teoria, e não a prática, dos Gregos que afectou a música da Europa ocidental na Idade Média. Temos muito mais informação acerca das teorias musicais gregas do que acerca da música em si.” (Idem. p. 19)

Por isso podemos inferir que, na prática, a música medieval e a nossa contemporânea tiveram influência de outras tradições, como a indiana, a árabe, a hebraica etc.

Sócrates, em A República, parte do pressuposto de que a música é imitação das disposições de caráter, virtudes ou vícios dos sujeitos, e defende que na pólis ideal “só os modos dórico e frígio serão admitidos, pois promovem, respectivamente, as virtudes da coragem e da temperança.” (Idem. p. 21) O que Platão e Aristóteles designavam por harmonia, hoje podemos entender por modo. (Idem. p. 25)

Reconstituições de música grega antiga

Epitáfio de Seikilos · Primeiro Stásimo de Orestes

Os modos litúrgicos ou eclesiásticos também são chamados gregorianos. (LACERDA, p.102) Mas “tais cânticos não podem ser incluídos com segurança num ou noutro desses modos. Em suma, a correspondência entre a teoria e a prática não é mais exacta para as melodias modais da Idade Média do que para qualquer outro tipo de música (…).” (GROUT, p.79)

Reconstituições de música medieval

Victimae paschali laudes · Kyrie IV (Cunctipotens genitor Deus)

No fim da Idade Média os compositores foram dando preferência aos modos Jônio e Eólio, hoje chamados Escala Natural Maior e Menor. (Idem. p.102)

Quadro das harmonias gregas com tons (T) e semitons (M) e exemplos em pauta
Harmonias GregasModos EclesiásticosGraus Modernos
MixolídioLócrioVII
LídioJônioI
FrígioDóricoII
DóricoFrígioIII
HipolídioLídioIV
HipofrígioMixolídioV
HipodóricoEólioVI

(clique numa linha para ouvir o modo)

A tabela é teórica; na prática, “os dois sistemas estão longe de serem paralelos. Embora nem os tratados medievais nem os livros litúrgicos modernos utilizem os nomes gregos (…), os nomes étnicos são geralmente usados nos modernos tratados sobre contraponto e análise musical.” (Idem. p.79)

Hoje os modos fazem parte do repertório de quem estuda música antiga e de improvisadores de jazz e outros gêneros. Há também exemplos de sistema modal na música pop, no rock e no metal, ainda que pelas teorias contemporâneas pudessem ser justificados dentro do sistema tonal. “Os modos em lá [Eólio, ou VI] e dó [Jônio, ou I], correspondentes aos nossos menor e maior, só foram teoricamente reconhecidos a partir de meados do século XVI (…)” (Idem. p. 79)

Como se formam os modos

Toma-se uma nota como primeira, a fundamental, e mantém-se a relação de intervalos até a oitava. O Jônico (Escala Maior Natural, ou Diatônica) é formado por tons e semitons, sem notas enarmônicas. Os intervalos entre Mi–Fá (3º e 4º graus) e Si–Dó (7º e oitava) são os semitons naturais.

Escala Jônica de Dó: dó tom ré tom mi meio-tom fá tom sol tom lá tom si meio-tom dó

O Eólio (Escala Menor Natural):

Escala Eólia de Dó: tônica, segunda, terça menor, quarta justa, quinta justa, sexta menor, sétima menor, oitava

Tomando a segunda nota da escala Jônica como fundamental e mantendo as relações de intervalos até a oitava, formamos o Dórico (II). Os demais graus formam-se do mesmo modo, tomando cada vez uma nota diferente da escala Jônica como fundamental.

Dórico a partir de Ré (fundamental, segunda maior, terça menor…) e a partir de Dó (Dó, Ré, bMi, Fá, Sol, Lá, bSi, Dó)
Gerador de modos. Escolha o modo e a fundamental: as relações de intervalos podem ser transpostas para qualquer tonalidade, com qualquer um dos 12 semitons como fundamental.

Modo: Fundamental:

4 · Outras escalas: a Cromática

Há outras escalas formadas para se adequar a uma exigência estética de um dado contexto ou com fins teóricos. A Cromática é formada só por semitons e contém notas enarmônicas.

Escala cromática ascendente e descendente em Dó

Notas enarmônicas têm nomes diferentes e sons iguais no sistema temperado (clique para ouvir as duas):

♯Ré♭Mi
♯Fá♭Sol
♯Lá♭Si

Exemplo de uso da escala cromática: Dungeon ~ Torre ~ Navio Fantasma, de Koichi Sugiyama (♯Dó = ♭Ré), e Stalked by Fear, de Dragon Quest VIII Symphonic Suite:

Referências

GROUT, Donald J.; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. Lisboa: Gradiva, 2007.
HINDEMITH, Paul. Treinamento elementar para músicos. SP: Ricordi Brasileira, 1988.
LACERDA, Osvaldo. Compêndio de teoria elementar da música. SP: Ricordi Brasileira, 8ª edição.
MED, Bohumil. Teoria da música. DF: Musimed, 1996.

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