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Cereja Azul

Ensaio sobre Música e Psicanálise

“Quanta gente existe por aí que fala, fala e não diz nada
Ou quase nada
Já me utilizei de toda escala e no final não sobrou nada
Ou quase nada
(...)
E quem quer todas as notas, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Fica sempre sem nenhuma, fica numa nota só”
(Tom Jobim, Newton Mendonça)

Qualquer sujeito já se emocionou ao ouvir uma música, se arrepiou, até se emocionou e chorou, sem saber por que. Antes que se possa falar, a música já cantou. É real. Em ato.

Simbólica nas partituras; nas explicações físicas relativas às ondas e frequências e suas consonâncias; nas memórias de namoros passados, de lugares que não mais estão.

É imaginária na ação do compositor, que imagina os sons. Seu esforço é de tornar o som imaginado em som real. Imaginar um som novo, que nunca foi ouvido. Ora, essa imaginação criadora, essa criatividade do compositor, não vem literalmente das nove Musas, filhas de Zeus com Mnemósine, as referências sonoras - o repertório - tem seu arquivo no inconsciente. Ou seja, nem bem acessível ao músico.

Por isso, nada mais óbvio: o músico estuda música; escuta música. Pois que, tanto não vem “do nada” a santa inspiração, que a música possui toda uma gramática funcional, como uma língua. E, como toda a língua, não são regras ditadas pelos músicos, pelos compositores, mas regras descobertas pelos analistas musicais.

Há também o fenômeno do improviso musical. No instante do improviso o músico não tem tempo hábil para pensar em cada nota, cada pequena duração, cada intensidade, cada mínima expressão... É bem capaz de o próprio improvisador se emocionar com o que toca, como se falasse algo de que não tinha a mínima ideia de que existia em si. Improvisar é livre associação.

No entanto livre associação de uma maneira muito especial: sem imagem, sem palavra. Apenas som. Não é à toa que Freud admite em seu texto sobre o Moisés de Michelângelo: "(...) com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer. Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta." Assim como à psicanálise, também se tem resistência à música, imagino que pelo seu caráter apelativo (que retira a pele), e por isso muitos devem preferir uma música superficial, que faz suave cafuné sobre a carne, um soprinho no sagrado rosto, que massageiam o individual ego: “não sacudam meu eu!”

Música não é apenas som. Aliás, é a todo instante permeada, atravessada por silêncios de todos os lados (como diz Lacan sobre a esquize do olhar no Seminário 11). Tudo o mais que não é música, durante sua execução, é silêncio, é falta de som, é desejo de som (o que não parte do “ponto de vista” da música são “olhares” silenciosos que vêm de todas as direções). Centenas de pessoas sentadas, quietas, ouvindo um concerto desejam, em silêncio, som. Há silêncios entre uma batida e outra, entre uma nota e outra da melodia. Dentro de um acorde de C7M(9, #11), acorde de seis notas, há outras seis notas - pelo menos - que não estão sendo tocadas; silenciosamente esperando o debute. Poderíamos dizer, até, que o músico é um administrador de sons, e, como todo administrador, trabalha com a falta, não com excesso. Excesso de som é como um barulho de construção, quem administraria isso? (John Cage, Stockhausen, Penderecki, entre outros...)

Será naquele instante, quando a música nos atinge em cheio a falta (quando dá uma nota diferente da que se esperava, ou a banda faz uma pausa súbita, ou quando o corpo reage a interrupção súbita das ondas mecânicas, ou quando me lembra a falta que faz alguém não estar aqui), é que nos emocionamos? 

O músico tem um poder que outro não músico não tem. Ou seja: falo. E não é só no objeto violão - máquina que se acopla ao corpo-eu e aumenta seu volume, e aumenta também sua potência. Potência de agir, como Espinosa define Alegria. O músico domina toda uma linguagem que todos são capazes (aliás, quase são incapazes de não fazê-lo) de sentir, quase como se entendessem ispi literis o que está sendo “dito”. E de fato compreendem, mas nem sempre se conclui o movimento do real ao simbólico, a dificuldade deve estar justamente nesse fator de que é difícil à música ser imaginada ou falada, a música se é cantada. O real (da música) nos vem em pedaços.

Na Grécia clássica se dizia que músico estava encantado pelas Musas.

Orfeu fazia o sol nascer com seu canto. Convenceu Hades de recuperar do inferno sua amada Erídice, através do canto.

As sereias desviavam marinheiros e piratas de seus rumos com seu canto.

A voz cantada ainda tem um aspecto a mais, quando contraposta com um violino, ou uma guitarra, uma flauta, etc. Qualquer pessoa tem - salvo os mudos - voz. É o espelho, identificação.

Música tem um poder tal que é capaz de mover multidões. Podemos usar o exemplo fabuloso do flautista de Hamelin, que conseguiu afogar os ratos que pesteavam a cidade, com o poder hipnótico de sua flauta. Ratos. Pessoas não deveriam se deixar transformar-se em ratos e serem afogadas por flautistas gananciosos, mas se sujeitam a cada coisa... Confudem música com imagem, se perdem na sinestesia. Compram um “artista” pelo rosto bonito, pela identificação, por estilo de vida, e os motivos narcísicos são tantos quantos narcisos no jardim regado pela mídia de massa. Ou também em momentos de grande multidões revolucionárias, como em Woodstock, ou na fama de “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré.

Música, claro, não é psicanálise. O grande pulo está, talvez, na ausência da transferência quando se trata de música. Enquanto na análise o analista se oferece como suporte ao fenômeno da transferência (Harari, 1990. p. 22) na música o encadeamento das ideias livremente se faz via tonalidade, via temperamento da música. O fenômeno, na música, não é a transferência, mas outra. Qual?


Palavras-chave:
A música nos registros lacanianos de real, simbólico e imaginário.
Improviso e livre associação.
Esquize do silêncio.

Referências:
Harari, Roberto. Uma introdução aos quatro conceitos fundamentais de Lacan. São Paulo: Papirus, 1990.
Lacan, Jaques. Seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
Freud, Sigmund. O Moisés de Michelangelo. In: freudonline.com.br
Portal Grécia antiga: greciantiga.org
4 de Julho de 2012

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