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Luisa

Onde estais, Luisa? Ultimamente sinto que não és mais a mesma. Será que eu mudei? Com certeza mudei, mas tu mudastes também. Como se eu me esforçasse para enxergar alguma coisa, e esse esforço da visão fizesse meus olhos chorarem (pois é logo atrás dos olhos, na região orbitofrontal, que localiza-se o "eu" no cérebro, forçar a saída do "eu", ou a entrada de algo logo na cara do "eu" pode fazer chorar). Acho que tens outro. Sei que eu mesmo tenho outras várias, mas nunca deixei de te amar. Elas outras nunca me amaram. Mas nem tu me amaste, sim?
Para além de minha alegria, sei que estarás sempre ali, ao alcance de minhas mãos, da minha boca. Sinto-me insuficiente para ti. Não falo bonito, não sou carinhoso, minto emoções, forço situações... Acontece, minha amada Luisa, que mal sei amar! Quero dizer, me esqueci como se faz. E é exatamente assim que se faz: esquecendo como se faz. Amar é esquecer como se ama. E eu te amo, Luisa. Te amo como a uma porta no deserto. Porta sem paredes. Porta que não serve nem de entrada, nem de saída, serve simplesmente para passar por dentro dela mesma. Mesmo inútil faço questão de pôr minhas mãos - imundas, medrosas, desejosas de feminilidade e calejadas de tanto te tocar - em tua maçaneta, girar e escutar o ruído, o gemido, sentir contrair o trinco que te tranca em teu outrem, tua batente; sentir a tensão, a agonia e ouvir o estalo! o orgasmo! Ter à mão direita tua maçaneta, e a esquerda a te epurrar, assim te controlar como bem entender, pela simples alegria de te atrevessar. Sei que não vou chegar a lugar nenhum, mas sei que essa é tua função - ser atravessada -, ó, porta amada. Luisa, nunca fostes para mim uma porta que me leva ao mundo de fora, ou que me põe dentro em um lugar especial, mas és justamente esta porta inútil, que não me leva a lugar nenhum (ao mesmo lugar, só que agora do outro lado de ti), que toma meu tempo, meu pensamento, minha escrita, minha música, meu sexo, meu nexo, meu ego, pela alegria de te ver ser exatamente aquilo que tu é: uma porta. E ser contigo quem te atravessa. Nunca serei uma porta e tu nunca serás um quarto. Nem um castelo. Nem uma rua. Nem um deserto. Mas serás, para sempre, um mundo inteiro que é, simplesmente, um portal para o outro lado de si mesmo. 
Me despeço de ti, choroso tal qual a flauta que não tocas, toda vez que terminamos de fazer amor. Nosso amor tem fim toda vez que tem fim nossa ação de amar. Por que isso? Toda vez o adeus é um último adeus. Mas os ois, nunca são primeiros ois. Nos cumprimentamos acanhados, tu faz que não me conhece, e eu faço que nunca te toquei. Fazes como se nunca tivesses escutado uma única palavra minha. Maldita, Luisa! Gorda. Bunda grande. Peitos grandes. E nem bunda ou peito tem. Nem tamanho. Mas és grande, gorda e difícil de lidar, de tão linda. Gostaria de ouvir tua voz. Sei que gosto de ouvir tua voz. Deve ser linda, todos os que já te tiveram - inclusive eu - dissemos que tua voz é linda. 
Tu deverias ter ficado. Deverias ter vindo e fincado. Eu sou um tolo, ainda acredito que te dominarei, e sei bem que só assim, sem ti, te dominarei. Não consigo te entender. Sei de onde vens, sei pra onde vais, mas o meio do caminho... como chegastes ao meio do caminho? Teu caminho tão preciso, tortuoso, amarelo, brilhante e sombrio. Já me deixaste acordado tantas vezes quando precisei dormir, já me fizeste sonhar quando deveria estar são, já me matasse quando tentei me suicidar. Só me atrapalhas a tal vida real, Luisa. Por isso te amo. De tanto ódio que sinto por não conseguir te ter, eu te amo. De tanto medo que percebam que... percebam que... pecebam o quê? Que não sou bom o suficiente para ti, Luisa. Todos sabem dos teus amores. Pouco me importa, porque muito me importa. Se eu me ocupasse em me importar com quem já te teve, perderia de poder me importar contigo. Não quero saber de mais ninguém, só de ti. De ti, e das outras. Mas tu és meu amor, não te esqueças isso. Como vais esquecer se és incapaz de lembrar? Maldita memória que não me deixa esquecer. Se te esquecesse eu poderia te amar. Eu poderia ter teu amor! Sei bem que somente eu te amei. Talvez teu pai tenha te amado. Quero ser teu pai e te amar. Serei teu novo pai, já que o velho morreu. Não tens mãe, ou será que tu és tua própria mãe? Sim, tu nasceste para seres mãe. Como eu queria ter filhos contigo... muitos filhos, lindos filhos, felizes filhos que encheriam minha alegria de nostalgia, tristeza e desejo. Mas mesmo nossos filhos nunca serão lindos como tu, Luisa. Tu és mulher. Rouca, complicada, instável, comovente, emocionada. Tu não és albina, nem negra. Não és alta, nem baixa. Não tens braços, nem gostos. Tens batente e guarnição, onde o trinco encontra o que está fora de ti, sempre ao redor de ti. Minha missão é encontrar essa batente, que não é só tua. Aliás, desde que nascestes não tens nada além de ti mesma, Luisa. Ah! Como eu te invejo, Luisa! A ti e teu pai. Mas teu pai foi um cafajeste, dos mais lindos. Quero ser teu pai. Pra te criar, e te livrar, e poder ver tuas irmãs serem mais feias que tu. E olha que são lindas. Como tu é cruel, fazer um homem sofrer assim, fazer mulheres sofrerem assim. Assim como? Exatamente assim, sem saber como se sofre, todos sofrem por causa de ti. Talvez, quando eu finalmente souber o que me tira potência de viver, que me deixa impotente com todas as outras, aí sim, finalmente me livrarei de ti, te jogarei fora, te darei de comer aos meus gatos, e vou gargalhar te vendo morrer em meus braços; aí sim, nos amaremos, então, até o fim da eternidade, porque mesmo que meu corpo morra, eu continuarei vivo. 
És como eu, Luisa. Sim. És exatamente como eu. Ninguém tem alma, nós somos alma. O que temos são corpos. Esforço-me para fazer meu corpo como o teu, para finalmente consumarmos nosso amor. Eu espero, e espero pra poder ter controle de teu corpo. Tens completo controle do meu, mas isso é porque eu tenho um corpo, e tu não. Que grosseria a minha! É claro que tens um corpo. E ele é lindo. Teu corpo é linda.
Vou procurar outras amantes, antes que eu enlouqueça, antes que eu fique só, antes que eu morra, antes que tu me mates, antes que me atropelem mesmo sem eu sair de casa. Pra que diabos eu sairia de casa, se aqui, bem aqui, sei que posso te encontrar? É só em função de ti que eu vivo, e por isso me faço de morto. Quero que te preocupes comigo, Luisa, porque eu me preocupo contigo. E te amo muito.

Ensaio sobre Música e Psicanálise

“Quanta gente existe por aí que fala, fala e não diz nada
Ou quase nada
Já me utilizei de toda escala e no final não sobrou nada
Ou quase nada
(...)
E quem quer todas as notas, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Fica sempre sem nenhuma, fica numa nota só”
(Tom Jobim, Newton Mendonça)

Qualquer sujeito já se emocionou ao ouvir uma música, se arrepiou, até se emocionou e chorou, sem saber por que. Antes que se possa falar, a música já cantou. É real. Em ato.

Simbólica nas partituras; nas explicações físicas relativas às ondas e frequências e suas consonâncias; nas memórias de namoros passados, de lugares que não mais estão.

É imaginária na ação do compositor, que imagina os sons. Seu esforço é de tornar o som imaginado em som real. Imaginar um som novo, que nunca foi ouvido. Ora, essa imaginação criadora, essa criatividade do compositor, não vem literalmente das nove Musas, filhas de Zeus com Mnemósine, as referências sonoras - o repertório - tem seu arquivo no inconsciente. Ou seja, nem bem acessível ao músico.

Por isso, nada mais óbvio: o músico estuda música; escuta música. Pois que, tanto não vem “do nada” a santa inspiração, que a música possui toda uma gramática funcional, como uma língua. E, como toda a língua, não são regras ditadas pelos músicos, pelos compositores, mas regras descobertas pelos analistas musicais.

Há também o fenômeno do improviso musical. No instante do improviso o músico não tem tempo hábil para pensar em cada nota, cada pequena duração, cada intensidade, cada mínima expressão... É bem capaz de o próprio improvisador se emocionar com o que toca, como se falasse algo de que não tinha a mínima ideia de que existia em si. Improvisar é livre associação.

No entanto livre associação de uma maneira muito especial: sem imagem, sem palavra. Apenas som. Não é à toa que Freud admite em seu texto sobre o Moisés de Michelângelo: "(...) com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer. Uma inclinação mental em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta." Assim como à psicanálise, também se tem resistência à música, imagino que pelo seu caráter apelativo (que retira a pele), e por isso muitos devem preferir uma música superficial, que faz suave cafuné sobre a carne, um soprinho no sagrado rosto, que massageiam o individual ego: “não sacudam meu eu!”

Música não é apenas som. Aliás, é a todo instante permeada, atravessada por silêncios de todos os lados (como diz Lacan sobre a esquize do olhar no Seminário 11). Tudo o mais que não é música, durante sua execução, é silêncio, é falta de som, é desejo de som (o que não parte do “ponto de vista” da música são “olhares” silenciosos que vêm de todas as direções). Centenas de pessoas sentadas, quietas, ouvindo um concerto desejam, em silêncio, som. Há silêncios entre uma batida e outra, entre uma nota e outra da melodia. Dentro de um acorde de C7M(9, #11), acorde de seis notas, há outras seis notas - pelo menos - que não estão sendo tocadas; silenciosamente esperando o debute. Poderíamos dizer, até, que o músico é um administrador de sons, e, como todo administrador, trabalha com a falta, não com excesso. Excesso de som é como um barulho de construção, quem administraria isso? (John Cage, Stockhausen, Penderecki, entre outros...)

Será naquele instante, quando a música nos atinge em cheio a falta (quando dá uma nota diferente da que se esperava, ou a banda faz uma pausa súbita, ou quando o corpo reage a interrupção súbita das ondas mecânicas, ou quando me lembra a falta que faz alguém não estar aqui), é que nos emocionamos? 

O músico tem um poder que outro não músico não tem. Ou seja: falo. E não é só no objeto violão - máquina que se acopla ao corpo-eu e aumenta seu volume, e aumenta também sua potência. Potência de agir, como Espinosa define Alegria. O músico domina toda uma linguagem que todos são capazes (aliás, quase são incapazes de não fazê-lo) de sentir, quase como se entendessem ispi literis o que está sendo “dito”. E de fato compreendem, mas nem sempre se conclui o movimento do real ao simbólico, a dificuldade deve estar justamente nesse fator de que é difícil à música ser imaginada ou falada, a música se é cantada. O real (da música) nos vem em pedaços.

Na Grécia clássica se dizia que músico estava encantado pelas Musas.

Orfeu fazia o sol nascer com seu canto. Convenceu Hades de recuperar do inferno sua amada Erídice, através do canto.

As sereias desviavam marinheiros e piratas de seus rumos com seu canto.

A voz cantada ainda tem um aspecto a mais, quando contraposta com um violino, ou uma guitarra, uma flauta, etc. Qualquer pessoa tem - salvo os mudos - voz. É o espelho, identificação.

Música tem um poder tal que é capaz de mover multidões. Podemos usar o exemplo fabuloso do flautista de Hamelin, que conseguiu afogar os ratos que pesteavam a cidade, com o poder hipnótico de sua flauta. Ratos. Pessoas não deveriam se deixar transformar-se em ratos e serem afogadas por flautistas gananciosos, mas se sujeitam a cada coisa... Confudem música com imagem, se perdem na sinestesia. Compram um “artista” pelo rosto bonito, pela identificação, por estilo de vida, e os motivos narcísicos são tantos quantos narcisos no jardim regado pela mídia de massa. Ou também em momentos de grande multidões revolucionárias, como em Woodstock, ou na fama de “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré.

Música, claro, não é psicanálise. O grande pulo está, talvez, na ausência da transferência quando se trata de música. Enquanto na análise o analista se oferece como suporte ao fenômeno da transferência (Harari, 1990. p. 22) na música o encadeamento das ideias livremente se faz via tonalidade, via temperamento da música. O fenômeno, na música, não é a transferência, mas outra. Qual?


Palavras-chave:
A música nos registros lacanianos de real, simbólico e imaginário.
Improviso e livre associação.
Esquize do silêncio.

Referências:
Harari, Roberto. Uma introdução aos quatro conceitos fundamentais de Lacan. São Paulo: Papirus, 1990.
Lacan, Jaques. Seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
Freud, Sigmund. O Moisés de Michelangelo. In: freudonline.com.br
Portal Grécia antiga: greciantiga.org
4 de Julho de 2012

dialógica

meio assim
tom waits com jobim
jerry atrás do zé
punk rock e afoxé
de tóquio à trindade
stravinsky e mozart
lispector paquerando com quintana
platão apaixonado por muçulmana
um pouco de novela, um outro de futebol
pintado à aquarela, conservado em formol
meio assim, meio assado
é volumoso, é chapado
um grande amor desapegado
é alegria triste pra caralho

vim te
dar ador
ar amor
tecer -
te
ia;
te
cido -

vim ser vis
to que
ri do
ama
do
vivo por ti
Como era mesmo
aquela frase de Nietzche
que fez mais sentido 
depois de voltar
do mar?

"Brincavam à beira 
do mar,
veio então a onda 
e levou
seus brinquedos para o fundo.
Agora choram.

A mesma onda, porém, lhes trará 
novos brinquedos e espalhará 
aos pés deles novas conchas 
coloridas.

Assim se consolarão, 
e vós também, meus amigos, tereis como eles
vossas consolações
e
novas conchas 
coloridas."

Lá estavam: eu
o sol, o mar e a areia
eu olhava o mar
e o mar me olhava de lá

pra cá, pensei:

Poderia estar brincando na areia
com ela, a divertida
como ela eu bem poderia
só ler um livro de poesia
ou do velho jovem Werther 
- tanto sofria
não sofre mais
matou-se.

Dei-me conta:
estou sozinho!
chorei c'as ondas
mas só um pouquinho
pois passou uma moça
de shortinho

Quisera Carlota
fosse tão sensual
quanto as raparigas
de fio dental

Enfim, Zaratustra desceu
à praia da Daniela
hoje quando eu
o levei a ter com ela.
Conversamos sobre tudo
sobre:
amor
o mar
roma
arom
a de milho e churros.

Não falamos de meu amor 
amargo porque não quis lamber 
o assunto porque o milho estava 
amarelo e salgado, e amarelo 
o sol queimava meu cocuruto

Não falamos 
com amor
porque el no 
contestó.

Eu quero ser uma estrela da pedra, neném




"I wanna be a rockstar" é um grito por liberdade tão urgente à adolescência que exterioriza a angústia em forma de gutural, pelo berro: nossa ferramenta, nossa arma mais primitiva, anterior à própria linguagem, quase “blablação” não fosse o significado da frase na língua inglesa, mas, em princípio, é como se o significado das palavras pouco importassem. O personagem rockstar foi o boêmio dos anos 90 (a música foi composta em 2002, na década seguinte, portanto o personagem do rockstar é como um resquício diurno, como se a década anterior fosse a "aurora" de minha atualidade; como se a década anterior fosse o dia, que forma todo o inconsciente obscuro, a noite atual, em mim, que alucina, sonha, com o ser rockstar nos anos 2000), o anarquista, o poeta, por quem as mulheres se atraíam apesar das roupas surradas e rasgadas e dos cabelos mal-penteados (seria justamente por isso que elas se atraíam? por parecer que precisam de mães, os rockstars? desejavam se sentir, com eles, a mais poderosa das mulheres: a mãe? cuidando dessa criança desamparada e angustiada que é o rockstar?).

Quando grito o que quero ser em outra língua imediatamente explicito (fico nu) que quero ser outra coisa que não isso que forçosamente sugere minha língua materna, minha mãe: quero renunciar a mãe, superar o desamparo, tornar-me o falo invejado; quero dominar a mãe, e por isso quero ser rockstar, possuir, dominar as muitas mulheres que se atreverem a serem minhas mães. Grito ao contrário do que me foi dado durante toda minha formação de sujeito, meu espírito torna-se leão e grita o sagrado "NÃO!" do Zaratustra de Nietzsche - nesta música meu espírito ainda não está pronto para se tornar criança, minha virtude não está tão potente.

"You want to hate, I don't wanna blame". Sou assim violento justamente por não querer sentir esse ódio por quem me tornei, apesar de em geral sentir que querem que seja eu seja odiado; e também não quero culpar ninguém, não me cabe culpar, sei que sou quem sou só por ser quem sou e isso não diz respeito a ninguém se não eu mesmo. E, como não sou mais cristão, e nem quero sê-lo, não me culpo. No entanto falo sempre na negativa, por isso tenho que ser agressivo, tenho que exteriorizar essa dor em força, quero produzir subjetividade, desejo; ação positiva contra o discurso-negativo: tenho que ser dialético para evoluir. "Listen what they say, what I told you: I wanna be a rockstar, baby. I wanna be a rockstar". Eu nem mesmo tenho assunto, é apenas isso que desejo, é isso que me falta: ser um rockstar, tudo o mais é anunciação: escute, escute... Mais uma grosseria minha, outra agressividade: chamo tua atenção, peço para que me escute, para então gritar em teus ouvidos o que quero: ser um rockstar. "Your life's so swell, well I don't really wanna live like that". Pois é justo isso: não quero ser bacana, não quero ser o bom vizinho, o que dá presentes à namorada somente nos aniversários; quero ser o amante! quero ser o poeta! (sei que Werther me entenderia) prefiro morrer a ser bacana (por fim a morte, sempre a morte no final, e somente com a morte se pode acabar).

Para mostrar que sei ser rockstar e que faço o que bem quiser eis que transformo a música em salsa, mas mantenho a mesma harmonia do grunge (assim avanç, vou mais além, sinto que supero um de meus ídolos, Kurt Cobain e seu Nirvana: quero, eu mesmo, tornar-me um ídolo), depois mais esta outra coisa (que era de meu amigo e me foi dado com carinho por ele, mas bem sei que nunca será meu, e por transferência me compadeço e me aproprio, agrego ao meu discurso; com a ajuda de meu amigo me torno essa outra coisa que quero ser, e como o amo, bem poderia ser ele, meu amigo, que me tornarei, por isso faço questão de usar o material que me oferecido por meu amigo) que não respeita a harmonia, sobe e desce cromaticamente, que se fortalece em dinâmica, de pouco em pouco, e cada vez mais, ralenta e... explode! em Tom Jobim. Ah, Tom... não quero sentir ódio, não quero culpar, escute... eu quero ser você! Só que do meu jeitinho. Ainda não sei qual é, por isso grito, por angústia, mas escute... estou tentando.

Eu vou ser um rockstar antes que eu morra.

Até que isso me mate, como o fez com todos os outros rockstars, boêmios, poetas, artistas e amantes: quero morrer de amor, não de ódio e culpa, de ser bacana. Produzir vida até que isso culmine em morte.

r olhem melhor mulher r ehlum

te amo
me fez filho
fará pai

pra que sou
me diz: trai!
dá e mata fome

também é mãe
também é
também é irmã
e também é,
mais
é meu umbigo que me faz
ser mais
mulher.
Por que será
que quando me querem
não as quero mais?
Aquelas que me ferem
feitas Vênus de peles
fazem-me capataz;
sinto-me incapaz
de ficar sobre meus pés
de ficar sob teus pés.

Tua beleza me assusta
E só és esta que és
Tão distante, tão arisca...

Não será eu
quem não se arrisca
a roubar um beijo teu?

Sasha Grey

Sasha grey é uma atriz pornô que gosta do que faz, diferente de quem diz que gosta mas passa anestésico no cu para sentir menos dor. Ela grita e tem uma bunda linda e grande. Gosta de possuir e dominar muitos homens ao mesmo tempo (que mal são homens, porque não costumam ter rostos, apenas pau) e de ler Sartre. Aposentou-se antes dos trinta anos e fez muito homem gastar dinheiro só para fantasiar com seu gosto de mulher que gosta de dar - coisa que diz-se rara. Ela é linda e ja fui apaixonado por ela; tenho muito orgulho de sua profissão, de seus lindos peitos pequenos e de seus cabelos naturais na cabeça e na boceta. Já quis amá-la muito mais que qualquer atriz de novela.
o futuro não existe nem nunca existirá; o passado já foi, não mais está aqui onde estou neste momento, agora, já.


o futuro não existe 
nem nunca existirá; 
o passado já foi, 
não mais está 
aqui onde estou 
neste momento, 
agora, já.
alta imensa maior que o mundo mais linda que dinheiro mais alta que coqueiro mais verde que o sol mais azul baguaçu violentada como santa decaptada tosada assassinada de uma vida de séculos mais velha que eu e que qualquer gaúcho vivo que vai morrer apesar de achar que não quando matou minha irmã minha árvore frutífera que alimentava meu irmão pássaro que cantava pro meu id sonho que velava meu descanso sono que agora acorda ao som de máquinas monstros estão avançando pra cima de mim e de minha vó que podia já ter morrido para não ter que passar por isso mas fico feliz que não porque a amo a amo como amo a cabeluda gárgula vênus portal do meu lar onde sempre sempre sempre sempre sempre sempre vivi e morei mais ainda não morri será que querem me matar? acho que sim mas não vão conseguir porque o único que pode tirar minha vida sou eu meu amor e a árvore mas a árvore já morreu agora só no ano que vem do ano que vem do ano que vem do ano que vem de mais de cem anos daqui quando seus cabelos voltarem a crescer que mania chata essa a dos homens que cortam os cabelos e as árvores pra caber mais carro e mais vaidade e menos amor e menos fruta de verdade já que fruta no mercado é feita de dinheiro sem dinheiro ninguém come as frutas do mercado nem vão morar nos monstros edificados que gritam a noite como se chorassem e devem chorar pois deve ser triste ser tão odiado e tão rico ao lado de gente tão amada e tão rica de amor e de árvore e de gatos cachorros e não de yorkshires e palmeiras mas sim avaí e guarani do abraão não de coqueiros mas da praia do cagão.

Ao amigo que chora de amor (pela falta, por parte dela; por excesso por parte dele)

Ai, como entristece
quando de amor sofre,
e chora melhor amigo nosso
- quem não se compadece?

Pior maldade não há
que a da mulher
que não quer
nos dar
amor. Pouco importa
humanidade! De que serve
nossa vaidade?

Sofre por querer um querer seu
de ser diferente do que se é
por causa da mulher.

Chora, amigo meu.
Pois nunca haverá
alegria maior que a amar!

chuva, mas que saudade.

chuva, que saudades tuas!
eu estava aqui, tão sozinho
o sono não vem, ninguém vem...
aí que tu me vem.

ainda bem que chegasse, eu queria mesmo conversar com alguém. sabe, tenho me sentido sozinho, dona. tu tá sempre acompanhada, não é? nunca te vi realmente sozinha, e só uns poucos te aceitam assim, como tu é. como Caetano cantou a poesia de Augusto de Campos e Péricles Cavalcanti: "(...) Nudez total: todo prazer provém do corpo (como a alma sem corpo) sem vestes. Como encadernação vistosa feita para iletrados a mulher se enfeita, mas ela é um livro místico e somente a alguns, a que tal graça se consente, é dado lê-la". só uns poucos te sabem ler, te ouvir tua voz. essa tua voz que é só tua, que todos conhecem, mas ninguém escuta. dizem: "é boa pra ninar", como se voz tivesse utilidade além de ser linda. a voz serve para vociferar, pra fazer soar, a utilidade da voz é existir como voz. ora, um mesmo canto em diferentes vozes viram diferentes cantos pois que o canto depende da voz. tua voz é linda e inútil, de tão linda. (como gosto das coisas lindas!; como gosto de ti!). já minha voz não. fico triste por não conseguir te cantar. e bem, é disto que quero conversar, justamente isto que me angustia: pra quem cantar? ó, dona... é triste não ter pra quem cantar e cantar pra ninguém. poderia cantar pra minha própria voz, pro meu próprio canto... hoje quero aprender a fazê-lo: cantar pra minha própria voz, já que é ela que canta em mim. mas eu e ela andamos de mal - eu e minha voz. veja só que arrogância: chamo-a de minha como se a possuísse, mas não é bem por aí. aliás, eis minha frustração: minha voz não é minha, é só dela, mas mora em mim. pra te falar a verdade, dona, nem sei bem do que falo (mas falo, porque meu falo é o que falo). sabe, é essa a confusão, é essa a solidão. tanto que converso (ou escrevo?) pra ti, minha única companhia. e companhia de todos os outros. ainda bem que a uma hora dessas te deixam cantar tão alto; cantas com, tanto cuidado, cuidado de mãe, esse teu, de cantar segura e forte, e ainda assim ninar uma multidão. se tu só pudesse ninar uma única pessoa, quem ninarias que honra seria! ó, que alegria! vê? assim que quero fazer alguém feliz: ofereço meu canto! e só. pequenino canto que tem voz, palavra, sentido, lógica, técnica, emoção, saliva, língua, atos falhos, sexo, medo, desejo, e não tem dinheiro. não gosto, não quero, não, não, não. minha voz é pra fazer amar. não é mesmo, dona? afinal, a essa hora quem não foi ninado está amando. só pode. ou chorando, mas chorando de amor: que é amar. ou então está no japão.

já vais embora, dona? gostei do papo. eu estava precisando. conversar com gente que não sabe cantar estava me cansando já. é sempre bom rever uma grande amiga, um grande amor. nessa época do ano tu canta com mais frequência, por quê? é sempre mais calor e talvez haja mais quem dance e quem ouça; no frio pode ser difícil escutar, porque os queixos batem, ou então o fogo faz barulho de fogo, ou então a touca tapa os ouvidos, ou então se escuta outra música, ou então se conversa, ou então se faz sexo, por isso no calor é melhor de te ouvir. as crianças não brincam quando tu está cantando, no máximo veêm um filme e tomam chocolate quente. ou então jogam video game. eu queria ir aí fora te dar um beijo de despedida, mas pode ser que eu fique resfriado, aí já não poderia mais cantar. por isso que estou te falando que quero cantar pra alguém que possa me ouvir depois de me beijar. isso é amor: utilizar de todas as maneiras possíveis todo o corpo e toda a alma; experimentar e se relacionar a partir de tudo e com tudo; descobrir eus novos em mims atualizados a cada canto através dos cantos. poder beijar, cantar, falar, lamber, degustar, morder, assoprar, sugar, sorrir, ou não, e ainda assim: amar.

tchau, dona. até mais. te amo.

olha lá, ela vai mesmo embora e bem devagar, elegante como só ela. por isso que eu tou aqui sozinho, grosseiro e mal vestido. pareço mal criado, não mereço mulheres assim, fortes, seguras e lindas como ela. não, não. vou pra sempre ficar olhando, encarando, contemplando daqui de dentro, e só. mas eu a desejo tanto e tanto, como eu queria que ela entendesse isso.


tudo isso é pra dizer que a quero, só preciso que ela cante pra mim. pra mim. não gosto que cante pra multidão e me deixe cá embaixo olhando e ouvindo, em meio aos ingratos, esperando que eu vá interpretar, ler sei lá em que linhas, coisas mal escritas, mal ditas; que eu jogue jogos cansativos, com regras rígidas e antigas.


quero um canto novo, só pra mim, e eu canto pra ti. teu canto só pra mim, meu canto só pra ti. teu só pra mim. meu só pra ti. canto. canto. meu. teu. só pra. só pra. mim. ti. sopra mim. sopra ti. sopra. sopra.

te amo.

(me ame. me.)
te amo.
te amo. te.

linda duvida vida linda

lindas morenas lindas
moças lindas línguas
lindas saias lindas
saia lindas saia
escreve linda
linda escreve linha
por linhas por lindas
nunca lindas minhas nunca
minhas lindas nunca minhas
linda a linda
ainda lindas femininas
femininas lindas
lindas meninas
linda antiga longínqua linda
morena menina feminina
lia e lia linda lia
queria linda minha
queria minha linda
sim sim som linda sim som são lindas
 inda   im   i    em   im
l        s      t   s     m
                                   li    a
                                     nd

Álbum de amizade (declaração de amizade)

Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de loucura da pessoa, não pode amá-la. Se não captar o ponto de demência de alguém… Ele pode assustar, mas, a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demêcia de alguém é a fonte de seu charme.”
 Gilles Deleuze¹

Em comemoração de meus 25 anos.

Amizade é caótica, bagunçada (pois é livre). A fotografia de grupo pretende captar e organizar um momento aleatório, mostrar (nos mostrar) o conforto que é estar em contraponto (ponto contra ponto, em relação; ora consoante, ora dissonante, mas tudo em prol à retórica perfeita da canção que é a amizade), conforto que pode ora precisar que se "afofe" mais um pouco as almofadas.



Amizade é recente, sempre atual (o passado da amizade deve rumar ao inconsciente, fora do ego, dentro do amor); nos atualiza no instante, no "já" (conselhos e sugestões de como resolver problemas imediatos, sejam eles aceitos ou não). Ao conquistar (sem esforço, por naturalidade, por amor) uma amizade, automaticamente o conselho, a sugestão, ganha importância, relevância.


Amizade é romântica; causa estranhamento e encantamento, nos enrubesce; amizade supera o gênereo e transcende o sujeito: inventa uma relação que deve, a cada instante, ser reinventada (a fim de que a amizade dure ela deve se atualizar sempre: deve evoluir dialetica e dialogicamente). Como podem relacionar-se o homem e a mulher na amizade recente? Eis que procuram-se novos conceitos, novas poesias, mas nada deve substituir, nunca, a amizade: a relação amorosa não passa (muito) de uma relação de amizade ultra-íntima.


Amizade resiste distâncias, virtualidades: não posso esperar que o amigo exista como eu existo; o ato quase-amoroso (proto-amoroso?) da amizade é precisamente receber e se deixar ser afetado pelo amigo como ele se apresenta (ser sensível ao estímulo mais próprio, único, individual e louco do amigo); querer que o amigo viva meu mundo é querer um outro eu: "quero desvelar teu mundo, amigo meu!"


Amizade permanece eternamente, mesmo aparentemente sem motivo (especialmente quando não há motivo): por que me afeiçoo por tal amigo? Por que permito que uma pessoa com a qual convivo, forçosamente muitas vezes, me conheça tão intimamente? Amigo não confia, não cobra confiança: a intimidade da amizade é tão clara quanto a da relação amorosa (ora, atreva-se a fofocar sobre minhas intimidades; não faz sentido trair um amigo).
"Fazer amor", na amizade, pode ser simplesmente 'rir': há quanto tempo rio com meu amigo? Quanto tempo mais vou continuar rindo? O riso dos que são íntimos (dos que conhecem segredos) tem intensidade própria, diferente do riso de prazer razo. O riso amigo não precisa de foco.


Amizade se dilui pelos vários anos que dura: sua intensidade nem sempre está na quantidade de tempo que se esteve junto, mas o próprio fascínio pela duração nos faz desejar estar junto um do outro: para sempre quero ser teu amigo para saber por que sou teu amigo, por isso planejo encontros, festas, bares; invento até mesmo amores, casos e problemas só para poder ter assunto com esta pessoa que amo tanto: meu amigo.


Amizade é divertida e despretensiosa. Estamos juntos nos momentos mais divertidos, principalmente as diversões importantes da evolução da vida social e profissional; participo, bebo, grito, rio nos mais importantes rituais (de formação profissional, acadêmica; aniversários, casamentos, nascimentos); não há nada que eu deseje mais do que estar vivo no teu velório (quero poder organizar teu velório), talvez o ritual mais importante de nossas vidas, e com certeza o ritual mais importante de nossas mortes; não suporto a ideia de te ver triste com minha partida, prefiro eu mesmo, na condição de teu amigo, suportar tua ausência terrena.


Amizade supera o gênero, transcende a sexualidade. O amor do amigo é como o amor de família: carinhos e cuidados infinitos. Supre todas as carências: emocionais, cognitivas e orgânicas (vitais): o amigo ama, ensina e dá de comer e beber. A amizade se torna como uma família, podendo o amigo se tornar um irmão - discute, discorda, e se apazígua no jogar videogame, no ver filme -, um pai (recrimina as ações aparentemente venenosas, dá conselhos rispidamente preocupa-se com a evolução viril -, uma mãe - se oferece a cuidar do que é mais caro e vital ao amigo -, tio, tia - deve ser aquele que apresenta e oferece o que os pais, por moralismo da posição paternal ou maternal, jamais se permitiriam se responsabilizar por pôr no mundo do filho -, vô, vó, cachorro, etc.


Amizade é produtiva, inventiva, criativa; produz desejos, devires. A própria relação dos amigos deve ser uma forma de obra de arte (original, em primeiro lugar), e como toda arte deve ter vida própria para além do "autor" (a relação de amizade): quero mostrar ao mundo nossa amizade; quero que nos vejam como Gil e Caetano, como Deleuze e Guattari, como Dionísio e Apolo.


Amizade é conflituosa, e a superação (resolução) de um conflito o faz se tornar uma anedota: "lembra-se de quando brigamos por aquele motivo banal? Como éramos crianças! Amigo, como fico feliz de ter superado isso ao teu lado": só com um amigo consegue-se superar conflitos e com estes gerar intimidades (quando brigo com um colega, imediatamente torno-me indiferente; já com um amigo, quando brigamos, nos odiamos para que o espaço do amor não permaneça vazio).
Distanciamo-nos um do outro, mas graças à relação de amizade deduzimos que o outro tenha seus motivos, e sabemos também que ele sabe que temos nossos motivos (o amigo não precisa que esses motivos sejam nobres pois eu o amo, e no amor tudo se justifica, inclusive a ausência).


Amizade é sóbria e profissional: devido as infinitas subjetividades, devo, na condição de amigo, me adaptar a relação, e encontrar a maneira mais potente de me relacionar com o amigo: não forço situações, quero que o amigo seja Outro (ele mesmo, no caso), e não eu mesmo: não quero que o amigo goste do que eu gosto, mas fico feliz com as coincidências; as coincidências coincidem nosso repertório de assunto.
Por alguns instantes, em algumas situações, sinto que tenho algo a ensinar ao amigo (quanta audácia a minha!), e o incrível acontece: o amigo, atencioso e carinhoso como uma mãe, aceita minhas sugestões e admite ter aprendido comigo; o amigo nos satisfaz; o amigo é como a mãe que se permite aprender com seu filho, e com os filhos dos outros.


Amamos quem ama quem amamos: como pode meu amigo amar tanto uma outra pessoa? Encanta-me este amor deles onde não estou. Eu poderia ter ciúmes, mas por fim percebo a alegria produzida a partir dessa relação (que não é minha, não é nossa: é deles, e é exclusiva) afeta a relação com meu primeiro amigo, como se meu amigo me amasse ainda mais por amar outra pessoa. Por fim que surge o maior encantamento: este amigo que ganhei como que um brinde, um presente, mostra-se tão interessante que eu mesmo desejo me relacionar para além do primeiro amigo (que ama e é amado por esta nova pessoa) e a cada encontro essa nova amizade evolui. Percebo, então, o que tanto apaixona o primeiro amigo nesta nova "amizade": apaixono-me também, de outra maneira, sem a intimidade amorosa.
(Desde que se permita e se esteja sensível a estímulos diversos toda relação que compõe um corpo irá compor todos os corpos que formam o que poderíamos chamar de "coleção de amigos")


Amizade é saudade, para sempre. Mesmo ao teu lado agora, na atualidade da nossa relação, fantasio nossa relação mais primitiva: sinto saudades, agora, de ti ao teu lado, agora. Quero poder sentir saudades de ti sempre, eis a amizade: não te quero como fosses, mas como és, e (in)felizmente és outra pessoa. Inventamos novos jogos, novas relações, novas formas de intimidade.
(Os afetos mais fortes são aqueles inexplicáveis, não é à toa que para se falar de amor precisa-se de uma obra de arte, pois o discurso (a dedicatória) nunca é suficiente. Nossa relação é tão intensa que não me atrevo a falar dela, sempre que o tento sinto-me cafona e fraco, eis porque preciso de nossa amizade: quero ser clássico e forte.)


É necessário que se discorde do amigo: quero crescer junto dele. Irrito-me a cada sinal de infantilidade, sinto-me um pai (as relações na amizade se refletem como na família, mas se desenvolvem de outra forma: não posso me atrever a moralizar meu amigo, ainda assim o faço). O amigo me estimula a pensar de forma nova, a aumentar meu mundo; aponta minhas contradições, fico então curioso: quem é este que não sou eu mas que me aponta com precisão? É o amigo.


Amizade dura: é antiga, presente e futura. Conheço seus gostos antigos e compreendo seus atuais; tou sempre consultando o amigo para afirmar meu bom gosto (da família eu resisto, do amigo eu absorvo).
Amizade é infantil: o "outro", o amigo, permite (muitas vezes apenas reconhece assim) que sejamos a criança de quando se tem as melhores lembranças juntos (a amizade é relação nostálgica; relação de passado no presente).

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linda, mimosa e dengosa (a vaca)

Tão linda que tu és, nunca reparei em ti. Tão óbvia tua cara, nunca reparei em teus olhos e te comi como como (se fosse) qualquer (outra) coisa. Te substituo assim, por qualquer piranha - mas não vivo sem ti.

Pobre de ti que do mundo não sabe nada!

Eu quero te comer todinha. Te saborear, possuir tua carne e tua beleza. Doar todo meu corpo para o ato de te comer: te amar. Quero te forçar para dentro de mim, te mastigar como se te beijasse - ou beijar como se mastigasse.

Pobre de mim que de ti não sei nada!

Teus olhos sequer existiam. Olhos, só os meus. Jaboticaba sempre foi fruta e mais nada. Aliás, fruta que nunca comi. Pobre de mim! Nanico ao teu lado; minha poesia e meu intelecto jamais teriam qualquer serventia para ti (jamais eu conseguiria compreender teu mundo); para ti sou apenas pequeno, fraco e sem chifres.

Querida, quero aprender a te amar. Mostre-se a mim! Juro que vou te procurar, a ti me devotar: mirar bem em teus olhos - morrer de medo de ti - sentir teu cheiro e dizer que te amo. Ninguém entenderá nosso amor. Nós mesmos não poderemos entendê-lo, e por isso vamos passar o resto das nossas vidas nos  pesquisando, nos experimentando, tentando entender, nos apropriar do amor: nosso amor.

Pobre do amor que não pode ser esse nosso.

Chamariam-no de outro nome. Loucura, libertinagem, falta de amor. Nunca admitiriam ser amor. Ninguém entende que não basta te comer, tenho que olhar em teus olhos melancólicos e amar tua tristeza de ser uma vaca. Ninguém entende que não basta seres útil e gostosa para mim, quero teu olhar de volta em meus e quero que ames minha melancolia de ser homem. Quero que me livres da pobre condição de ser homem: quero ser vaca como tu. Carregar tuas tetas e nossos filhos. Carregar toda tua dor contigo, e me oferecer como comida quando estiveres com fome.

Antes de tudo, quero te olhar, e ter certeza de que não sou eu quem está aí.

(Floripa, 4 de Outubro de 2012.)

Auto-retrato


Auto-retrato
Bic preta no "caderninho".
Florianópolis, 26 de Janeiro de 2012.
É só saudade
aquilo que se tem
culpa de ter perdido.

Um grande amor é assim mesmo:
tão complexo, e tão (i)ma(e)nso,
de carinho, (se) mata a golpes lentos.

(Florianópolis, 13 de Março de 2012)

... espera a palavra certa.

A noiva no altar
O avião parado na pista
o poeta ébrio
o paciente sóbrio
o aluno e seu tédio
A mamãe de seu bebê
O eleitor alienado
O surfista no radinho
O estressado no trânsito
Aquele ajoelhado no templo
O curioso no livro
Aquele que vai
O triste que fica
O doente na cama
No conselho do amigo
No dia de seu velório
O colecionador de pássaros
Aquele que pede comida
Quem se acha feio
Quem se acha linda
Quem não quer saber nada